A guerra das drogas

No Rio de Janeiro, onde a pobreza e a prosperidade se esfregam, Robin Hood usa chinelo Havaiana, boné de beisebol e uma submetralhadora Uzi. Chama-se Meio Quilo, Cabeludo, e Buzunga e sua floresta de Sherwood é a favela. Para sustentar seu reinado, lança mão de pavor e favor, tirando de quem tem para dar a quem ele quiser...

É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h05

Escrevi essas frases em 1988, na primeira vez que abordei o tema do tráfico, com mistura de espanto, curiosidade intensa e a convicção de que tamanha barbaridade, em tamanho país, não poderia continuar. Ao longo dos anos seguintes, voltei ao tema, não sei quantas vezes. Trocando de morro e das alcunhas dos bandidos, é claro, mas já sem o espanto, muito menos a convicção original.

Quando o repórter vira um disco arranhado, está na hora de se mexer. Mas foi o Rio que se mexeu. Hoje, o Rio já contabiliza 18 zonas pacificadas.

A Rocinha, outrora feudo de Buzunga e seus herdeiros, deita e acorda sem tiroteio. Logo mais, será a vez do gigantesco Complexo da Maré, uma dezena de favelas agarradas como um torniquete em volta da Avenida Brasil e a Linha Vermelha, vias expressas que ligam a capital carioca com o mundo.

Ainda não se sabe o desfecho desse novo enredo, mas os cariocas experimentam um raro momento de paz e ordem em bairros que, enfim, prometem fazer jus aos belos nomes fantasia. Rocinha, Mangueira, Providência, Babilônia, Chácara do Céu: morro a morro, os castelos de crime balançam.

Mudança definitiva? Depende. No início dos anos 90, recebi um amigo americano, um professor universitário, em sua primeira viagem ao País. Ele quis conhecer o Rio morro acima e fomos à Rocinha, cartão-postal da cidade partida. "Qual é o pacto que sustenta tudo isso?", questionou-me lá no alto, de onde o Rio esplendoroso descortinava-se na janela de casebre.

A pergunta - ganha-pão de uma centenas de sociólogos - não é nova. Mas a explicação mais eloquente veio agora, no porta-malas de uma Toyota Corolla, onde se escondia Antônio Bonfim Lopes, o traficante Nem, descoberto numa blitz policial.

Com sua escolta, um advogado e um suposto cônsul honorário do Congo, ele tentou negociar sua liberdade, mas - eis o dado crucial - os tenentes da Polícia Militar recusaram a propina, coisa de US$ 1 milhão. Perdeu a banda podre. Vantagem para o Rio novo.

Mudança. A narrativa do jornalista também muda. Cheguei no Brasil quando havia desconfiança de palpites alheios. Eram tempos da reserva de mercado da informática e o Pal-M, linguagem de vídeo que só o Brasil entendia. Isso mudou. Para enfrentar o crime, o Rio, mais confiante, consome ideias boas de onde venham.

Lançou o "Rio, Como Vamos?", inspirada pela experiência de Bogotá, onde cidadãos fiscalizam o crime e problemas urbanos.

O país, já sem bairrismo digital, monitora o crime com sistemas de ponta de georreferenciamento e rastreia o dinheiro lavado com ajuda de computação em nuvem. Importou talento, também, como no caso do Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame, gaúcho da Polícia Federal que, sem pavonice nem pirotecnia, retoma um por um territórios há anos alienados ao banditismo.

Conflito regional. A guerra das drogas continua na América Latina. Mas a batalha migrou. Robin Hood hoje é um Zeta e Sherwood Forest é a Ciudad Juárez, no México. Com favores e terror, seu bando e filiais controlam um bom pedaço do istmo centro-americano.

Desde 2006, as baixas da guerra de drogas mexicana já passam de 44 mil. Honduras e El Salvador, onde atuam as franquias dos bandidos mexicanos, têm as maiores taxas de homicídio no mundo.

Como o crime, a pauta do Brasil modificou-se. Não se pode dizer que o Rio está dominado, mas já está sendo ocupado, e é essa a boa notícia. Um povo também muda a pauta.

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