A 'guerra de opereta' que parou o Atlântico Sul

Principais consequências da Guerra das Malvinas foram a derrocada da ditadura argentina e o fortalecimento de Margaret Thatcher

LIZBETH BATISTA , DO ARQUIVO , O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h05

Num último ato, tão dramático quanto improvável, o debilitado regime militar argentino, ameaçado pela grave crise econômica e crescente insatisfação popular, buscou agregar apoio popular em torno de uma causa e, consequentemente, do próprio regime. Para isso, desenterrou uma querela antiga e provocou uma potência ao ponto de transformá-la num inimigo externo.

Esse foi o capítulo mais trágico da centenária disputa entre Inglaterra e Argentina pelas Ilhas Malvinas (Falkland, para os ingleses). A guerra teve início há 30 anos, quando tropas argentinas invadiram o arquipélago colonial inglês, em 1.º de abril de 1982.

Em pouco tempo a Inglaterra reagiu. Organizou uma força-tarefa digna da tradição militar e imponência de sua armada. A participação do príncipe Andrew, então segundo na linha sucessória do trono, nos combates aéreos não deixaram dúvidas sobre a disposição inglesa para recuperar o controle sobre o arquipélago.

As motivações para o confronto eram nebulosas. A opinião pública inglesa e a argentina não apoiavam nem entendiam a disputa bélica por um território inóspito e de riquezas duvidosas. Mas, uma vez despertado o orgulho patriótico nesses países, os ganhos da vitória se tornaram mais evidentes. Quem venceu não apenas deteve a posse sobre o território e salvou a honra de seu país, mas garantiu o futuro de seu governo.

Entre os louros, o vencedor colheu uma onda de fervorosa popularidade. O perdedor também colheu fervor, mas na forma de revolta. Momento de glória para a conservadora Margaret Thatcher, que da vitória inglesa tirou votos, reelegeu-se primeira-ministra nas eleições de 1983.

Dias de vergonha para os militares na Argentina. O general Leopoldo Galtieri renunciou 3 dias após a derrota. O triste espetáculo da volta dos soldados, que optaram pela rendição e retornaram contando os horrores particulares desta guerra - a fome, pois a comida era insuficiente, o frio que os impedia de dormir e até de moverem-se, pois suas vestimentas não eram apropriadas para o gélido clima local - agitou a massa insatisfeita na Argentina. A derrota levou ao agravou da crise econômica no país e à derrocada de sua ditadura militar.

O Estado realizou uma extensa cobertura de todo o conflito. Matérias diárias informaram sobre as frustradas tentativas de resolução diplomática, o início dos confrontos, as manobras militares, as armas, efetivos e táticas de combate aéreo e marítimo utilizadas.

Enviados especiais cobriram a trágica realidade no fronte, enquanto correspondentes noticiavam as decisões tomadas em Buenos Aires e Londres e a reação da população argentina e inglesa após cada dia de combates nas ilhas geladas.

O conflito provocou temores internacionais. Países mobilizaram-se para conter as indiscutíveis perdas no campo das relações internacionais. Atentos a isso, correspondentes de diversas partes do mundo analisavam as consequências globais da guerra.

Nos editoriais, o jornal apoiou o "ecumênico neutralismo da nossa diplomacia", preocupada com os problemas que um alinhamento trariam ao País. Reafirmando a incompreensão internacional, apontou o caráter tragicômico do embate, chamando-o de guerra de opereta, onde governos "encontram pretexto de endurecimento em arroubos nacionalistas, e os utilizam para desviar a opinião pública interna dos verdadeiros problemas com que se defrontam as nações envolvidas."

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