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A guerra dentro do Islã

Os muçulmanos que rejeitam o Islã do ódio devem ser encorajados em favor do Islã que respeita os direitos humanos

Bernard-Henry Levy / Project Syndicate, O Estado de S. Paulo

24 Abril 2016 | 05h00

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, estava certo quando, recentemente, afirmou que não existe nenhuma desculpa para o jihadismo. Rejeitar a cultura das desculpas, acrescentou, implica resistir à tentação de querer explicar a fúria jihadista. E, mais uma vez, Valls tinha razão, no dia 4, ao alertar para o perigo de uma vitória ideológica do salafismo, a doutrina sobre a qual se baseia o jihadismo, que vê a Europa (e, na Europa, a França), como um terreno perfeito para o proselitismo.

Nos últimos 30 anos, sucessivos governos franceses abdicaram da responsabilidade de participar deste debate. Mas, embora a passividade tenha talvez garantido a paz social a curto prazo, permitiu que outros valores, que não os da república, lançassem raízes em amplos segmentos urbanos do país.

A isso seguiu-se uma espécie de cegueira voluntária, quando os governos rejeitaram admitir que o fundamentalismo militante islâmico era na realidade uma forma de islamofascismo, a terceira variante global do totalitarismo que os críticos mais acirrados vinham condenando há um quarto de século.

Esta falha do governo foi favorecida pela miopia cúmplice que predominava em ambas as extremidades do espectro político. Em 2012, Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional de extrema direita, fundiu (a fim de condená-los) o símbolo religioso, que é o yarmulke, o solidéu judaico, e o emblema político, que é o véu. E, exatamente este mês, a senadora Verde Esther Benbassa afirmou que uma minissaia não é menos alienante do que o chador.

O que fizeram Marine e Benbassa senão tornar aceitável uma forma de barbarismo cuja face ocasionalmente humana jamais deveria nos permitir esquecer que pessoas estão matando, aleijando e estuprando em seu nome?

A este problema soma-se a notória vantagem que os extremistas têm sobre os moderados pelo fato de gritarem mais alto. Assim como os montagnards (a ala mais à esquerda da Revolução Francesa) e os girondinos (republicanos moderados) na Assembleia Nacional durante a Revolução, os jihadistas fanáticos estão expulsando o grande número de muçulmanos que só querem ser deixados em paz para praticarem sua fé no respeito pelos outros e pela lei.

E, finalmente, existe o tímido recuo que costumamos observar nos nossos líderes sempre que fanáticos religiosos estigmatizam os que os ofendem. Ontem, foi o romancista indiano Salman Rushdie; hoje é o romancista argelino Kamel Daoud. A primeira reação de tantos líderes nos tempos atuais é estigmatizarem as vítimas pela segunda vez, sugerindo que elas estavam pedindo isso.

Em todo caso, o resultado é simples: o apaziguamento da violenta radicalização encorajando sua repetição. Consequentemente, nos encontramos num estado não declarado de emergência intelectual, a qual, lamentavelmente, deu origem a estados de emergência, proclamados pelos nossos governos na esteira de ataques terroristas.

Fazer frente a esta emergência exige, acima de tudo, dizer e fazer o oposto do que na maioria das vezes foi dito e feito. Especificamente, devemos dar nome aos bois. Um islamista pode ser um muçulmano perdido, mas mesmo assim ele continua sendo um muçulmano. É preciso parar de repetir ad nauseam que estes muçulmanos aberrantes não têm “nada a ver com o Islã”.

Em outras palavras, devemos reconhecer que os dois Islãs estão acorrentados numa luta de morte e, pelo fato de o campo de batalha ser o planeta, e a guerra ameaçar valores defendidos pelo Ocidente, a luta não diz respeito unicamente aos muçulmanos.

Feito isto, devemos procurar identificar, desenredar e expor as redes do ódio e do terror islâmicos com a mesma energia e criatividade hoje empregados para desbaratar os esquemas globais dos sonegadores de impostos. Quanto tempo ainda teremos de esperar pelos Panama Papers do salafismo? O que impede os grandes jornais de arrancarem da rede oculta os Mossack Fonsecas da jihad global e suas criminosas companhias offshore?

Também devemos ajudar, encorajar e armar ideologicamente os muçulmanos que rejeitam o Islã do ódio em favor de um Islã que respeita as mulheres, seus rostos e seus direitos, assim como os direitos humanos em geral. Não foi isto que fizemos num passado não muito distante em relação aos bravos que chamamos dissidentes no mundo soviético? E acaso não tínhamos razão, na época, em ignorar os que nos diziam que os dissidentes eram uma minoria, que nunca, jamais, prevaleceriam contra a ideologia granítica do comunismo?

Isso significa proteger e defender Daoud (para citar apenas um exemplo atual), um escritor em língua francesa de origem muçulmana que sugeriu que os que buscam refúgio na Europa deveriam aprender a apreciar os valores europeus. 

Por isso, Daoud recebeu uma dupla fatwa (sentença islâmica): primeiramente por parte de seus “irmãos assassinos”, para tomar emprestada a frase do jornalista franco-argelino Mohamed Sifaoui, e, em segundo lugar, por parte de um punhado de intelectuais supostamente progressistas e antirracistas franceses que o acusaram de “reciclar os clichês mais repisados do orientalismo”, quando instou os árabes a respeitarem a dignidade das mulheres.

Os autênticos antirracistas, anti-imperialistas, os que creem na democracia republicana devem tomar o partido do Islã da moderação e da paz em sua guerra contra o Islã criminoso dos salafistas.

Esta é uma guerra ideológica, teológica e política, uma guerra que ultrapassa os mundos, as culturas, e o que chamamos com razão de civilização no sentido amplo, desde os bairros perdidos das cidades da França até as áreas – por exemplo, Curdistão, Marrocos, Bósnia, e Bangladesh – em que o Islã esclarecido permanece vivo e próspero. Esta, em termos gerais, é a nossa urgente tarefa. Esta é a nossa guerra. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

*É UM DOS FUNDADORES DO MOVIMENTO DOS NOVOS FILÓSOFOS. ENTRE OUTROS, ESCREVEU “LEFT IN DARK TIMES: A STAND AGAINST THE NEW BARBARISM”

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