A guerra está chegando

Ocidente precisa decidir se prefere pagar o preço de uma intervenção militar agora ou perder muito mais ao deixar essa escolha para o futuro

Mikhail Saakashvili*, Foreign Policy/O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2014 | 02h07

No início de março, depois de encenar um referendo defendido por Kalashnikovs na Crimeia, a Federação Russa seguiu com a anexação da região, estabelecendo os alicerces para "novas realidades políticas e legais" - de acordo com Moscou, um novo paradigma russo para um mundo sem lei. Como disse a chanceler alemã, Angela Merkel, no dia 13, a Rússia está trazendo à mesa a lei da selva. Para aqueles que acompanham as tentativas de Vladimir Putin de reverter o resultado daquilo que ele chama de "maior catástrofe geopolítica" do século 20 - a dissolução da União Soviética -, os acontecimentos na Ucrânia não chegam a ser inesperados. E esse ainda não é o último ato da peça.

A história pode ser uma útil professora para os políticos: primeiro, para ajudar a prevenir novos desastres e, em segundo lugar, para ajudá-los a reagir aos desastres que ocorrem inevitavelmente. Muitos políticos estão repetindo erros que já deveriam conhecer há décadas.

Na Chechênia, milhares de pessoas morreram apenas para fazer de Putin o presidente e consolidar seu poder. Quando as revoluções coloridas - e suas reformas bem sucedidas - tornaram-se uma ameaça ao seu governo, ele invadiu a Geórgia para matar aquele modelo contagioso e reafirmar seu poder.

Agora, como antes, enfrentando a erosão de sua popularidade na Rússia, uma revolução do gás de xisto na América do Norte e a necessidade de acesso consistente aos portos para manter abastecidos seus aliados no Oriente Médio, Putin atacou a Ucrânia e tomou a Crimeia.

Mesmo com essa miríade de exemplos, o Ocidente continua a desculpar ou interpretar equivocadamente a agressão de Putin. Muitos especialistas estão ocupados em busca do sentido da vida e um dos refrões mais repetidos diz que o Ocidente foi longe demais na expansão da Otan e da União Europeia, provocando sem necessidade o lobo russo. A conclusão desse raciocínio diz que, por mais petulante que seja o comportamento russo, parte da sua motivação estaria no ativismo ocidental. Trata-se de um tipo particular de autoflagelação intelectual e, para Putin, um reflexo da fraqueza que só serve para estimulá-lo.

Ao defender que as grandes potências europeias aceitassem a ocupação dos Sudetos por Adolf Hitler, Neville Chamberlain disse que os europeus não deveriam se incomodar com "uma disputa num país distante, entre pessoas a respeito das quais nada sabemos". Vejo muitos especialistas falando agora em "assimetria de interesses", dizendo que a Rússia teria o direito de anexar terras de países vizinhos simplesmente porque ela se importa mais com essas terras do que o Ocidente. Outros opinam que devemos nos acostumar com a ideia da Crimeia perdida, que jamais será devolvida pela Rússia. Foi exatamente o que me disseram em 2008 - que eu deveria me resignar à ideia de que a parte do território georgiano, então ocupada pela Rússia, tinha sido perdida para sempre.

Como aprendemos com a história, os ciclos de apaziguamento costumam se tornar mais curtos com progressão geométrica. Em breve, os mesmos especialistas podem declarar - com sua expressão mais indiferente - que agora a Moldávia, a Letônia ou mesmo alguma província da Polônia foi "perdida". Simplesmente porque a Rússia não quer devolver tais territórios.

Para o Ocidente, a principal baixa não será entre os países que já são ou desejam ser seus aliados. Serão os princípios sobre os quais o mundo ocidental se ergue. A verdade é que Geórgia, Ucrânia e Moldávia estão sendo castigadas pela Rússia por desejarem viver numa sociedade livre e democrática - muito diferente do modelo de Putin.

É certo que Moscou não se importava muito com as populações russas minoritárias em seus países vizinhos - desde que essas fossem confortavelmente governadas por capangas corruptos do Kremlin. Mas, na última década, Geórgia, Ucrânia e Moldávia aprenderam a olhar para o Ocidente, nem tanto por suas prioridades geopolíticas, mas porque seus habitantes aspiram a um estilo de vida ocidental que respeita os direitos humanos e os valores universais. É por essa razão que o Ocidente deve proteger esses países, não apenas em decorrência de cálculos pragmáticos.

A Rússia confronta a lei e a ordem internacionais com seu maior desafio desde a invasão do Afeganistão em 1979. E ainda que o Ocidente tenha hoje uma superioridade - tanto econômica quanto militar - em relação à Rússia, muito maior do que jamais teve diante da URSS, os líderes atuais se mostram relutantes em se aproveitar dessa assimetria.

Talvez o problema decorra da ambivalência da maioria dos especialistas regionais que orientam o pensamento dos líderes ocidentais. Seu equívoco na leitura das intenções russas tem como base o fato de não compreenderem a diferença entre a "nomenklatura" soviética e a elite corrupta da Rússia moderna. Eles subestimam muito o quanto essa elite é apegada a suas mansões e contas bancárias no Ocidente.

Da mesma maneira, os principais responsáveis pelas decisões em Moscou são muito mais dependentes psicológica e financeiramente do Ocidente do que os burocratas da era de Brejnev. As sanções podem separar com sucesso esse grupo do círculo mais próximo de Putin, mas elas precisam ser aprofundadas.

Apesar da retórica do presidente americano, Barack Obama, o Ocidente e a Europa, em especial, parecem relutantes em impor sanções mais rigorosas. Diferentemente da época da Guerra Fria, as empresas ocidentais hoje lucram muito com a Rússia e, por isso, também terão de pagar o preço das sanções. Após o anúncio da primeira rodada de restrições, as ações logo recuperaram seu preço quando os mercados ficaram aliviados ao ver que as medidas não traziam consequências muito graves. Como o Ocidente espera ser levado a sério por Putin se nem mesmo Wall Street acredita na seriedade das intenções da aliança ocidental?

O dilema é simples: será que o Ocidente está disposto a pagar esse preço agora ou atrasar a decisão e pagar um preço muito mais alto no futuro? Essa escolha pode ser descrita em termos médicos. O câncer da agressão russa surgiu pela primeira vez na Geórgia. O Ocidente decidiu ignorar o diagnóstico, preferindo tratar a doença com aspirinas. A Crimeia é a metástase daquilo que ocorreu na Geórgia, mas o Ocidente continua a excluir a opção cirúrgica - ou seja, a intervenção militar - dizendo que essa é arriscada demais.

No entanto, no mínimo, seria melhor começar com a quimioterapia. Sim, isso significa que o Ocidente sentiria os efeitos do próprio remédio, principalmente as empresas europeias no curto prazo. Mas, no longo prazo, essa dose dolorosa é a única maneira de ajudar a eliminar o câncer chamado Putin.

A respeito dos apaziguadores de Hitler, Winston Churchill disse, certa vez, profeticamente: "Puderam escolher entre guerra e desonra. Optaram pela desonra e terão a guerra". É claro que não podemos esperar de políticos modernos, obcecados com pesquisas e eleições legislativas, que sejam como Churchill o tempo todo. Mas, no mínimo, eles não deveriam ansiar por entrar para a história como Chamberlain. E, no coração do apaziguamento, há um equívoco em relação ao homem que Putin é - e sempre foi.

*Mikhail Saakashvili foi presidente da Georgia de 2004 a 2013. É professor na Fletcher School of Law and Diplomacy da Tufts University.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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