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A guerra inevitável entre EUA e China 

A dissuasão nuclear, que evitou uma grande guerra desde 1945, está se provando eficaz mais uma vez, mas por isso mesmo a guerra comercial entre Washington e Pequim, substituta de um conflito de verdade, parece cada vez mais incontornável

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2018 | 06h00

Enquanto os presidentes Donald Trump e Xi Jinping firmavam uma trégua de 90 dias na guerra comercial em Buenos Aires, no outro extremo do continente americano, em Vancouver, a prisão da diretora financeira da empresa chinesa Huawei, na noite do sábado, dia 1.º, escancarava a realidade: os interesses de Estados Unidos e China são inconciliáveis.

Depois do encontro, Pequim se manteve em silêncio, funcionários americanos indicaram que o acordo não era tão abrangente quanto Trump acreditava e o próprio presidente ameaçou retomar a guerra se a negociação não progredisse: “Sou um homem de tarifas”. Sua credencial é impecável: ele sobretaxou produtos chineses no valor de US$ 250 bilhões.

Diante desse quadro sombrio, as ações tiveram a maior queda de 2018 nos EUA, com impacto negativo sobre outros mercados. Trump e o governo chinês tentaram, então, na quarta-feira, demonstrar otimismo com uma saída negociada.

Neste momento, a prisão de Meng Wanzhou, ocorrida cinco dias antes, e sua possível extradição do Canadá para os EUA, foram noticiadas. Um porta-voz da chancelaria chinesa exigiu a imediata libertação de Meng, uma figura pública na China, filha do fundador da Huawei.

Ataques diretos

Os EUA acusam a Huawei de violar as leis americanas, fornecendo tecnologia sensível de telecomunicações para o Irã, parte da qual foi produzida por empresas americanas. Americanos e europeus também acusam os chineses de embarcar chips nos celulares, tanto da Huawei quanto da ZTE, para espionar os outros países.

A Huawei é a maior fabricante de celulares da China e segunda maior do mundo, depois da sul-coreana Samsung. É ainda líder mundial na fabricação de equipamentos de rádio para a transmissão de dados e na tecnologia 5G.

De acordo com um estudo da consultoria americana Stratfor, a Huawei ocupa posição de destaque em desenho de chips, aparelhos celulares e infraestrutura de rede. Só duas outras empresas no mundo disputam a liderança nesses três segmentos: a ZTE e a Samsung, que desponta ainda na fabricação de chips.

A Apple figura entre os líderes em desenho de chips e aparelhos. A Intel, em desenho e fabricação de chips. A também americana Broadcom, em desenho de chips e RF front band (a rede de circuitos da antena ao receptor). Outra chinesa, a Spreadtrum, também encabeça o desenho de chips.

Globalização

A interdependência nesse setor é notável. Dos 92 principais fornecedores da Huawei, 33 são americanos, incluindo a Intel. Sem contar a holandesa NXP, que tem fábricas nos EUA. Apenas 29 são da China ou de Hong Kong.

De acordo com a Associação da Indústria de Semicondutores, dos EUA, uma de suas filiadas tem mais de 16 mil fornecedores, dos quais 8,5 mil são de outros países. Os chips estão presentes em tudo o que tem valor econômico e estratégico. O resultado da disputa por espaço nesse setor tem implicações de toda ordem.

A emergência da China assinala o fim de um período em que os EUA exerceram sozinhos a hegemonia mundial, desde a dissolução da União Soviética, em 1991. Em seu recente livro A Armadilha de Tucídides, o historiador americano Graham Allison Jr. contabiliza que, nos últimos 500 anos, houve 16 processos como esse, dos quais 12 levaram a guerras.

Assisti em maio a um seminário de Allison na Universidade de Fudan, em Xangai, no qual ele alertou: “EUA e China não escaparão da armadilha se mantiverem a diplomacia usual. Terão a história usual. Seremos mais burros do que na 1.ª Guerra.”

Afinal, raciocina Allison, “estudamos a história para não repeti-la”. No ponto em que estamos, a dissuasão nuclear, que evitou uma grande guerra desde 1945, está se provando eficaz mais uma vez. A guerra comercial entre EUA e China é a substituta de uma guerra de verdade. Por isso mesmo, ela parece inevitável.

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