A guerra interna continua nos bastidores de Washington

À espera de melhores notícias do "front", os falcões puros e os falcões "light" do governo Bush continuaram hoje na guerra de guerrilha que travam nos bastidores e pela imprensa desde o início da semana passada, quando ficou claro que os iraquianos não seguiriam o roteiro previsto pelos arquitetos da invasão. Na ausência da rendição em massa dos soldados de Saddam Hussein, do colapso do regime e de cenas de gratidão dos iraquianos a seus "libertadores" americanos e ingleses, a perspectiva de uma guerra mais longa e sangrenta e suas implicações para o futuro do Iraque e a posição dos Estados Unidos na região reavivou as divisões entre os conselheiros da administração e seus aliados no Partido Republicano."Nas próximas semanas e meses, os duros, que se alinham com (o vice-presidente Dick) Cheney, (o secretário de Defesa, Donald) Rumsfeld e (o vice-secretário de Defesa Paul) Wolfowitz e os pragmáticos, que seguem a linha mais moderada de (secretário de Estado, Colin) Powell medirão forças para ver quem terá mais influência sobre (o presidente George W.) Bush", disse um político republicano que ocupou altos postos de confiança no governo Reagan.De acordo com o ex-funcionário, que é politicamente identificado com a ala moderada do partido conservador, a maneira como a guerra evoluir determinará o grau de influência da linha Cheney ou da linha Powell junto a Bush, mas não será o único fator. "Não se esqueça que uma guerra mais longa e difícil e um pós-guerra complicado atrapalharão muito os planos de reeleição de Bush, pois isso será mais um dado negativo num quadro de uma economia desfavorável, que voltará a ser a principal preocupação dos eleitores depois que a guerra acabar", disse ele. "Politicamente, a guerra não ajudaria muito a Bush, mesmo se a tese mais otimista da vitória rápida tivesse acontecido".Contra esse pano de fundo, o senador Chuck Hagel, um republicano de Nebraska e ex-oficial do Exército, condecorado por bravura na guerra do Vietnã, engrossou o coro de críticas a Rumsfeld, que é acusado por generais da ativa e da reserva de ter interferido demasiadamente nos preparativos militares do plano de guerra e contribuído para criar a situação difícil que as forças americanas agora enfrentam. "Quando os generais de campo, que estão lá, comandando tropas no meio de batalhas, dizem certas coisas, a liderança civil do Pentágono precisa ser cuidadosa para não descartar publicamente o que eles dizem".Assessores de senadores republicanos usaram palavras como "deprimidos", "chocados" e "pálidos" para descrever o estado de espírito de seus chefes, depois do relato secreto que eles ouviram sobre o andamento da guerra, na semana passada, de oficiais de inteligência.Nos bastidores, republicanos moderados têm feito críticas pesadas a Cheney, Rumsfeld e Wolfowitz. Segundo o Washington Post de hoje, "ex-altos funcionários de governos republicanos passados e líderes do Partido Republicano" já iniciaram um esforço para convencer o presidente Bush de que os conselhos que ele recebeu... do poderoso triunvirato... estavam errados e são perigosos para os interesses de longo prazo dos Estados Unidos".Num gesto tático provavelmente calculado para proteger Colin Powell, os críticos dos falcões têm sublinhado que não têm autorização do secretário de Estado para falar e que ele está plenamente sintonizado com seu colega de gabinete na condução da guerra. O próprio Powell, um ex-general que foi comandante do Estado Maior das Forças Armadas durante a Guerra do Golfo, em 1991, e tem melhores relações com os militares do que Rumsfeld, tem evitado qualquer gesto que denote discórdia no governo.Na semana passada, depois que o general William Wallace, o comandante das forças terrestres no Iraque, criticou publicamente o otimismo exagerado que informou o plano de guerra, causando enorme contrariedade na Casa Branca e no Pentágono, Powell saiu em sua defesa. "Eu tenho absoluta confiança nos comandantes que estão conduzindo a guerra. Eu os conheço. Eu os treinei". Na mesma entrevista, à rede CBS, o secretário de Estado fez também uma declaração que foi interpretada como um torpedo contra Wolfowitz, que nunca serviu às Forças Armadas e é tido como o mais ardoroso adversário de Powell na guerra surda em curso na administração. "Quando a guerra começa, o preço a pagar são os mortos e feridos, e o preço é pago por maravilhosos jovens americanos que servem seu país e acreditam na causa, e não por intelectuais", afirmou.Ao mesmo, tempo, ele sabe que conta com a proteção do ex-presidente George H. Bush, o pai do atual líder americano e "a única pessoa capaz de influenciar o presidente", segundo disse um ex-alto líder republicano ao Post. "Eu detesto críticas a Colin Powell, venham de onde vierem", declarou o ex-presidente numa entrevista publicada esta semana pela Newsweek. Veja o especial :

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