A guerra que Obama não quis molda sua política externa

O fato de os soldados dos EUA estarem deixando o Iraque sem um colapso total da segurança deve encorajar a retirada do Afeganistão

MARK , LANDLER, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, MARK , LANDLER, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h04

Artigo

Barack Obama cumpriu sua promessa de campanha de pôr fim à guerra do Iraque e descreveu a retirada dos últimos soldados como uma oportunidade de se voltar para a reconstrução da sua própria nação. Mas do Afeganistão à Primavera Árabe, da China às ações de combate ao terror, as lições oferecidas pela guerra no Iraque ainda sustentam a política externa do governo - moldando, e às vezes limitando, a maneira como o presidente projeta o poder americano no mundo.

Essa guerra que Obama nunca quis combater pesou nos debates internos, ditou prioridades e com frequência restringiu as opções dos EUA, é o que afirmam autoridades do governo.

De maneira mais perceptível, a rápida diminuição da presença americana no Iraque influenciará a maneira como os EUA encerrarão a guerra no Afeganistão, onde as forças da Otan chegaram a um acordo para transferir a segurança para o governo local e se retirar em 2014. O fato de os soldados estarem deixando o Iraque sem um colapso total da segurança, dizem analistas, poderá encorajar este governo, avesso à guerra, a antecipar o cronograma de retirada do Afeganistão.

O Iraque também fez pender a balança do poder em Washington, dos comandantes militares, desesperados para deixar uma força residual no Iraque, para os assessores civis de Obama, que andam ocupadíssimos estudando como a vinda de todos os soldados para casa no Natal poderia ajudar na campanha do seu chefe para se reeleger.

"Habitualmente é um debate acalorado até para estabelecer um cronograma", disse Benjamin J. Rhodes, assessor adjunto de Segurança Nacional. Mesmo advertindo que o Iraque não é um precedente perfeito para o caso do Afeganistão, ele disse que "não deve haver dúvidas quanto à promessa de seguir os prazos que estabelecemos para o Afeganistão".

Rhodes, que foi o encarregado dos discursos de Obama sobre política externa durante a campanha de 2008, diz que o Iraque "foi um elemento com muito pouca representação na maneira como as pessoas analisavam a política externa de Obama". Como um candidato cuja oposição à guerra colaborou para definir o seu perfil" , diz ele "o senador Obama montou toda uma lógica externa com base no Iraque".

E o seu raciocínio se ancora em dois pilares centrais: que o Iraque havia desviado os olhos dos EUA da real batalha no Afeganistão e isso tinha debilitado a posição dos EUA no mundo. O que levou diretamente a dois dos mais importantes projetos de segurança nacional e política externa do governo: a estratégia devastadora no combate ao terrorismo e suas recentes iniciativas diplomáticas e militares na Ásia.

Os ataques com drones e comandos especiais, dos quais o presidente recentemente se vangloriou de que "puseram fim a 22 dos 30 principais líderes da Al-Qaeda", incluindo Osama bin Laden, foram ações aperfeiçoadas dos ataques noturnos de tropas americanas contra militantes no Iraque.

A ênfase do presidente Obama em restaurar a posição dos Estados Unidos na Ásia se desenvolveu de um "reequilíbrio estratégico" pós-Iraque defendido pela secretária de Estado Hillary Clinton e o assessor de segurança nacional Thomas E. Donilon. A guerra, eles argumentaram, absorveu tempo e recursos americanos de outras partes do mundo, permitindo à China expandir sua influência por grande parte da costa do Pacífico.

"O grande legado do Iraque foi no sentido de que o Exército dos Estados Unidos não pôde determinar os resultados", disse Vali Nasr, ex-assessor do Departamento de Estado. "E isso provocou uma preocupação da nossa parte quanto ao uso da força militar".

Obama tem dado muito mais ênfase ao seu compromisso com uma política externa multilateral, em contraste com a invasão unilateral do Iraque decidida por George W. Bush. E, segundo os assessores do presidente, essa ideia se desenvolveu com base na sua convicção de que os EUA precisavam trabalhar com os outros e forjar consensos para restaurar o seu prestígio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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