A guerra suja a limpo

Na história conflagrada da América Latina, Guatemala é um capítulo à parte. Mais de 200 mil pessoas morreram na sua guerra civil, que durou 36 anos e triturou o país centro-americano. Caudilhos e homens fortes deixaram cada um sua pegada, mas poucos chegaram à truculência de Efraín Ríos Montt, o militar que governou de 1982 a 1983.

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h07

Tomou o poder por quartelada e assim também caiu, 17 meses depois. Entre um golpe e outro, protagonizou um dos capítulos mais sujos de todas as guerras sujas das Américas: 1.700 mortos. Saiu pela porta dos fundos, mas com a pavonice de quem cumpriu seu dever. Agora, 30 anos depois, inverte-se o enredo.

Na semana passada, Ríos Montt sentou como réu no Supremo Tribunal guatemalteco. Contra ele e seu ex-chefe de inteligência militar pesam acusações das mais arrepiantes, de genocídio a crimes contra a humanidade. Em sua ofensiva, a tropa do general teria alvejado não apenas os insurgentes marxistas, mas também centenas de civis e indígenas acusados de acobertar a guerrilha. Na varredura, não foram poupadas mulheres nem crianças.

O julgamento deve demorar, mas já está fazendo história. Ríos Montt é o primeiro ex-chefe de Estado a responder no tribunal de seu próprio país por crimes de guerra cometidos durante seu mandato. Segundo os sobreviventes, os algozes quando não mataram, torturaram. Algumas das vítimas foram queimadas vivas.

Se prevalecer a tese de genocídio, o generalíssimo não poderá se escorar na lei de anistia, que isentou combatentes de ambos os lados das barricadas guatemaltecas.

Em tempos de relativa paz, estabilidade política e primavera democrática, relatos de guerrilha e guerra suja soam ruídos distantes. Mas há pouco mais de uma geração, o hemisfério fervia de extremismos cujo legado ninguém ousava remexer. Agora todos querem saber.

O Peru está prestes a inaugurar seu Lugar da Memória, dedicado aos 69 mil mortos no embate entre forças de segurança e o terrorismo do Sendero Luminoso. Chile, em 2010, abriu seu Museu da Memória e Direitos Humanos em homenagem aos 3 mil que morreram sob o regime do general Augusto Pinochet. Brasil toca sua comissão da verdade, descortinando a violência oculta durante o período militar. Argentina foi mais longe. Revogou sua lei de anistia, abriu os porões e começa a julgar os crimes da guerra suja, que tragou 30 mil vidas entre 1976 e 1983.

O combustível da memória latina é a redemocratização. Eleições abertas são a regra continental. As Forças Armadas retornaram ao quartel, algumas com humildade, outras em desgraça. A junta argentina que está hoje na banca dos réus é a mesma que patrocinou a desastrosa invasão das Ilhas Malvinas.

O ex-ditador peruano Alberto Fujimori está preso por crimes contra a humanidade. Mesmo os autocratas da hora como o equatoriano Rafael Correa, o boliviano Evo Morales e os herdeiros de Hugo Chávez se veem obrigados a responder a eleitores cada vez mais antenados sobre seus direitos constitucionais.

A politização da memória traz riscos. Tocada por facções partidárias, cada um com sua verdade conveniente, torna-se uma disputa para estabelecer quem controla o passado. Até mesmo na Guatemala.

Na semana passada, manifestantes marcharam até o Supremo Tribunal em desagravo ao general da guerra suja. Mas não passaram de duas dúzias de descontentes.

Entre os inconformados está o atual presidente guatemalteco, Otto Pérez Molina, um general que lutou ao lado de Ríos Montt. Mas Pérez Molina tomou o poder pelo voto popular. Político sagaz, nada fez ou falou para interferir no julgamento contra seu ex-patrão. Em tempos de memória em brasa, sua discrição fala volumes.

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