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A guilhotina do Brexit

Boris Johnson, atolado até o pescoço em sua batalha com a UE, joga com a sorte 

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2019 | 06h00

Avançamos irrevogavelmente em direção à data fatídica de 31 de outubro. Em um mês, portanto, o Brexit entra em vigor, que significa o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia. Permanece um grande ponto de interrogação: o Brexit será “duro”, como o primeiro-ministro Boris Johnson deseja, ou teremos um Brexit ameno e bem-educado?

As empresas britânicas estão impacientes e febris. Elas são alimentadas por informações dos serviços oficiais que desejam ajudá-las a fazer essa travessia. Na França, a mesma coisa. Toda semana, os empregadores (Medef) realizam reuniões para esclarecer os líderes empresariais ingleses e franceses. Estes seminários ajudarão a atenuar o choque? Ninguém sabe. Uma coisa é certa: o humor britânico, até agora pelo menos, resiste. 

No final de uma dessas sessões de treinamento, um executivo britânico, Gary Haworth, falou sobre sua confusão. “Existe algo de divertido, absurdo em tudo isso. Eles nos dizem, de todos os cantos, que devemos estar prontos. Mas ainda não sabemos para quê.”

Isso nos leva de volta à questão crucial. O Brexit será “duro” ou bem moderado? Se dermos ouvidos a Johnson, será um corte limpo, a guilhotina e a cabeça cortadas e ensanguentadas no cesto de serragem. O mesmo executivo continua: “Nada está seguro com Boris. É até possível que, em duas semanas, ele anuncie que todos se beijaram e chegamos a um acordo. E eu deveria me preparar para o quê?”

No lado francês, nos preparamos com mais seriedade. Ficamos com a hipótese do Brexit difícil. A alfândega retomará o serviço entre o Reino Unido e os países do continente. Difícil? “Será preciso reaprender esgueirar-se em meio a um papelório infinito, ocupar-se de ninharias, que vão criar engarrafamentos e, então, temos verdadeiro medo dos atrasos em entregas.”

Note-se que, ao mesmo tempo, Johnson, atolado até o pescoço em sua batalha com a União Europeia, joga com a sorte. As más notícias da economia acotovelam-se para chegar, mesmo que nem todas sejam relacionadas ao Brexit. O naufrágio da empresa de viagens Thomas Cook é um destes casos. Ela, sem dúvida, não tem nada a ver com o Brexit. Mas, com seus 200 anos de idade, a empresa era uma das marcas da Grã-Bretanha, uma figura de seu “brasão de armas”.

Este “brasão” recebe atualmente outro golpe. Os ônibus vermelhos de dois andares, que faziam parte da imagem de Londres, agora passam por uma fase difícil. Um desastre? Por que não ver também desaparecerem os táxis pretos, a cerveja morna, a bebedeira das gangues de jovens e os pubs?

Pois então, a empresa Wrightbus, criada em 1946 e especializada em veículos de dois andares com pouca emissão de gás carbônico, acaba de pedir falência. Os 900 veículos de sua frota estão parados. Se a empresa desaparecer, deixará 1.300 pessoas desempregadas na fábrica de

Ballylena, na Irlanda do Norte, e haveria uma perda de 3.400 empregos entre fabricantes de equipamentos.

Ironia das coisas: Johnson, quando era prefeito de Londres, se apaixonou por esses ônibus. Ele havia encomendado 600, que ganharam o apelido de Boris, em homenagem ao então prefeito Boris Johnson. A piscadela definitiva do destino é que o filho do criador da Wrightbus, agora com 90 anos de idade, é um defensor do Brexit. Só não sabemos se ele prefere o Brexit duro ou um divórcio amigável. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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