A guinada errada de Morsi

Líder egípcio chegou ao poder graças a um movimento democrático reprimido no Irã, país que ele aceitou visitar

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h05

TEERÃ - Acho alarmante que uma das primeiras viagens do presidente recém-eleito do Egito, Mohamed Morsi, seja para o Irã, onde participará da reunião de cúpula do Movimento dos países Não Alinhados, em Teerã, esta semana. Desculpe, presidente Morsi, mas só há um motivo pelo qual o regime iraniano quer que essa reunião se realize em Teerã, onde recebe chefes de Estado como o senhor. A razão é mostrar ao povo iraniano que o mundo aprova a liderança dos clérigos no país e, portanto, que ele não deveria jamais pensar novamente em lançar um movimento pró-democracia - exatamente o mesmo movimento em favor da democracia que levou o senhor, presidente Morsi, ao poder no Egito.

Em 2009, esse regime iraniano matou literalmente a Grande Revolução. Executou centenas de iranianos e colocou na prisão milhares de outros que queriam a única coisa que os egípcios conseguiram: uma contagem honesta dos seus votos e o respeito pelos resultados das urnas.

Morsi, que foi conduzido ao poder por uma corajosa revolução em prol da democracia que nem ele nem o seu grupo, a Irmandade Muçulmana, iniciaram - mas que se beneficiaram das eleições livres e justas que se seguiram - está emprestando sua legitimidade para um regime iraniano que esmagou de maneira brutal justamente esse movimento em Teerã. O que não é um bom presságio para a presidência de Morsi. Na realidade, ele deveria se envergonhar.

"O regime iraniano ofereceu a Morsi um tour asséptico por suas instalações nucleares", observa Karim Sadjadpour, especialista iraniano no Carnegie Endowment. "Morsi, ex-prisioneiro político no Egito de Mubarak, deveria solicitar também uma visita à notória prisão de Evin, em Teerã. Ela o lembraria do seu passado e lhe ofereceria um vislumbre do futuro do Irã."

Autoridades egípcias afirmam que Morsi só ficará em Teerã por algumas horas para entregar ao Irã a presidência do Movimento dos Não Alinhados que estava com o Egito. Será mesmo? Poderia ter feito isso pelo correio, transmitindo desse modo uma poderosa mensagem democrática. A propósito, o que é hoje o Movimento dos Não Alinhados? "Não Alinhados em relação a quê e com quem?", pergunta Michael Mandelbaum, especialista em política externa na Johns Hopkins.

O Movimento dos Não Alinhados foi concebido na cúpula de Bandung, em 1955, época em que ele tinha uma lógica. O mundo estava dividido entre os capitalistas democráticos do Ocidente e os comunistas do Leste. Países em desenvolvimento como Egito, Iugoslávia e Indonésia declararam-se "não alinhados" a esses dois blocos. "Hoje em dia, não há nenhum bloco comunista", diz Mandelbaum. "O mundo se divide fundamentalmente entre países democráticos e não democráticos".

Será que Morsi se comporta como não alinhado ao fazer essa escolha? Será um não alinhado na hora de escolher entre democracias e ditaduras - principalmente a iraniana, que se mostra tão conivente em esmagar a rebelião síria também? A propósito, por que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, está dando uma mão nesse festival de assepsia iraniano? Que traição para os democratas iranianos.

Isso nada tem a ver com Israel ou com a bomba nuclear iraniana. Se Morsi quer manter uma paz fria com Israel, esse é um assunto seu. Por outro lado, eu gostaria que conseguisse recuperar o Egito. Seria um grande estímulo para a democracia no mundo árabe. Aquilo de que o Egito precisa, acima de tudo, não se encontra em Teerã. Em sua primeira grande viagem, Morsi não deveria ir apenas para a China e o Irã.

Deveria ter percorrido a Europa e a Ásia para tranquilizar os investidores e os turistas de que o Egito voltou aos negócios - e talvez ao Vale do Silício e depois para a Caltech, a fim de se encontrar com o químico egípcio vencedor do Prêmio Nobel, Ahmed Zewail, para enfatizar seu compromisso com a recuperação da educação no país, onde metade das mulheres é analfabeta.

Se Morsi precisa de uma introdução ao movimento pró-democracia do Irã (cujo regime islâmico rompeu relações com o Egito em 1979 em protesto contra o tratado de paz com Israel), pode ler o que escreveu Abbas Milani, especialista em Irã, de Stanford, no site do Instituto da Paz dos EUA:

"O Movimento Verde atingiu o auge quando 3 milhões de manifestantes pacíficos foram às ruas em Teerã para protestar contra as afirmações oficiais de que Mahmoud Ahmadinejad vencera de forma esmagadora as eleições presidenciais em 2009. Seu slogan simples dizia: 'Onde está o meu voto?' Nos seis meses seguintes, o Movimento Verde, inicialmente um grupo de eleitores furiosos, evoluiu, tornando-se uma força nacional que exige os direitos democráticos reivindicados originalmente na Revolução de 1979, e depois sequestrados pelos clérigos radicais. À medida que o impulso crescia, fortalecendo o Movimento Verde, a resposta do governo foi se tornando cada vez mais repressiva. No outono de 2009, mais de 100 líderes, ativistas e teóricos mais importantes do Movimento Verde foram mostrados em processos clamorosos, que lembraram os processo infames de Joseph Stalin, nos anos 30."

No início de 2010, o regime conseguiu reprimir toda oposição pública. Esse é o regime que Morsi ajudará a tornar asséptico. Pelo menos esperamos que ele leia a carta que lhe foi enviada por um grupo iraniano que luta pela democracia, os Mensageiros Verdes da Esperança, pedindo a Morsi que lembre aos seus anfitriões iranianos "o destino dos líderes que sempre deram as costas ao voto do povo, e peça que governem o seu país respaldando-se no apoio do povo iraniano e não na força militar." Talvez Morsi queira lembrar a si mesmo disso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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