A herança do radicalismo

Ele está morto. Na véspera, disse que não queria morrer e "adorava matar", mas não ser morto. Preferia viver. Depois corrigiu. Afirmou: "Se eu morrer, será sorrindo". Mais tarde, disse: "Morrerei de arma na mão".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

23 Março 2012 | 03h02

Os policiais e políticos fizeram de tudo para evitar sua morte. Queriam ouvi-lo. Esperavam que a fadiga e a angústia conseguissem dobrá-lo, mas, depois de 32 horas de reclusão em seu apartamento em Toulouse, ele ainda resistia. Então os homens da tropa de elite francesa entraram. Cinco minutos de inferno. Tiros. O homem que quis "colocar a França de joelhos" caiu por terra, sem vida.

É o que sabemos. O resto é mistério. As raras pessoas que o encontraram se contradizem. Alguns se recordam do seu "olhar frio". Bastava olhar para ele para sentir medo. Mas Christian Etelin, que o conheceu melhor, pois foi seu advogado nas várias altercações que Merah teve com a Justiça desde a adolescência, fala de "uma beleza fascinante", uma "voz doce", "um rosto de anjo".

Agora, muitas questões serão levantadas. Uma delas é técnica. Como o serviço secreto francês, que tinha a ficha de Merah em seus arquivos e o conhecia bem, jamais agiu para neutralizá-lo? Enquanto ele não passasse à ação, isso é normal. Não se prende qualquer um só porque viajou ao Afeganistão. Mas deveria ter sido vigiado. Além disso, decorreu mais de uma semana entre o assassinato do primeiro soldado e a morte das crianças judias. Não seria prudente levantar sua ficha, procurá-lo?

Um outro aspecto, mais importante: na França todos achavam que o perigo do terrorismo extremo tinha desaparecido. Não é verdade. Uma disputa já se desenha no horizonte. A extrema direita de Marine Le Pen critica Nicolas Sarkozy pela sua excessiva tolerância em relação à imigração. Os amigos de Sarkozy, por seu lado, acusam os socialistas e a esquerda de gritar de indignação e citar sempre os direitos humanos cada vez que o governo quer reforçar os controles, expulsar os imigrantes clandestinos, expurgar as "áreas difíceis" (subúrbios de imigrantes).

Sarkozy já anunciou novas medidas drásticas para derrotar o terrorismo. Ninguém duvida que, na sua campanha eleitoral, ele vai "radicalizar seu discurso, mais à direita", para esvaziar o reservatório de votos de Marine Le Pen e cercar o socialista Hollande, retratando-o como um frouxo, um fraco.

Radicalismo. A mórbida aventura de Merah e o despertar do terrorismo levanta um outro ponto, que raramente é discutido há mais de um ano do início das revoluções da Primavera Árabe. Três países se livraram dos seus tiranos: a Líbia, a Tunísia e o Egito. Esses ditadores eram inimigos do terrorismo islâmico.

Os três países atravessam hoje um período de transição, tentando desenvolver uma democracia. Não é fácil. A desordem e o quase caos reinam na Líbia, no Egito, na Tunísia. Os islâmicos retornaram. Estão prestes a dividir a Líbia em duas. Na Tunísia, os salafistas tornam a vida dura, muito dura, para as autoridades. No Egito, a Irmandade Muçulmana ressurge com toda força. Seus membros sustentam que se tornaram democráticos, mas ninguém duvida que sonhos obscuros povoem suas noites e a sharia faça parte do seu pequeno teatro mental.

Claro que o personagem estirado no chão na manhã de ontem, o imbecil, o cretino que espalhou a morte em Toulouse não tem nenhuma relação com esses três países. Mas é evidente que o discurso, a pregação, o sermão, o messianismo islâmico encontraram nesses países mergulhados na desordem e no sofrimento novas reservas de mortífera eloquência. E essas vozes serão ouvidas, durante meses, talvez anos, pelos espíritos fracos e abandonados que atormentam as cidades da Europa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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