AP Photo/John Minchillo
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A hesitação dos moderados

Republicanos demoraram tempo demais para condenar posições obscuras de Trump

FAREED ZAKARIA*, THE WASHINGTON POST

07 de março de 2016 | 05h00

Uma das principais causas do crescimento do extremismo no mundo islâmico é a covardia dos muçulmanos moderados, que há décadas optaram por não condenar más ideias e retórica agressiva. Temendo ser vistos como ideologicamente fracos, evitam confrontar o câncer que salta à vista. Ficou claro agora que uma dinâmica similar está em curso no mundo conservador.

Mitt Romney deveria ser parabenizado por ter feito um discurso chamando Donald Trump de falso e denunciando-o como fraude. Mas onde estava ele em 2012 quando Trump fazia sua suja – e absolutamente falsa – campanha semeando dúvidas quanto à cidadania americana de Obama?

Estava ao lado de Trump em Las Vegas, como lembra E. J. Dionne Jr. em seu livro Why the Right Went Wrong (Por que a direita errou). “Há coisas que você simplesmente não pode imaginar acontecendo na vida”, disse Romney. “Ter seu apoio é uma delícia. Estou muito satisfeito e honrado.” E, embora geralmente renegue o “nascimentismo”, Romney pôs lenha na fogueira, naquele mesmo ano, ao ironizar dizendo que “nunca ninguém pediu para ver minha certidão de nascimento”.

Sempre houve radicais nos dois lados do espectro político. Mas a diferença no movimento conservador é que, desde os anos 1990, alguns dos membros mais proeminentes de sua corrente majoritária adotaram a retórica e tática dos extremos. Um memorando do comitê de ação política de Newt Gingrich daquela década exortava candidatos republicanos a usarem retórica selvagem contra os oponentes democratas. Alguns dos termos recomendados eram “fracasso”, patético”, “desgraça” e “incompetente”. No mês passado, Trump chamou Romney de “candidato fracassado” e o presidente Obama de “totalmente incompetente”. Talvez ele tenha lido o memorando.

É gratificante ver que a National Review mobilizou-se contra Trump, condenando seu “populismo flutuante” e desdém pelos detalhes da política pública. Mas onde estavam os editores da revista quando Sarah Palin exibiu as mesmas características oito anos atrás? Estavam aplaudindo-a entusiasticamente. O editor da National cumprimentou-a por “seu estilo combativo, sem papas na língua”. Foi mais contido que o editor do Weekly Standard, William Kristol, que chamou Sarah de “arrasa-corações”.

Sarah não sabia praticamente nada de política pública nacional e internacional, mas quase comemorava essa ignorância, jogando contra o anti-intelectualismo e antielitismo de parte da base conservadora. Em vez de observarem que conhecimento e preparo são para se admirar, não zombar, intelectuais conservadores vibravam de admiração. Robert Kagan, escritor conhecido e colunista colaborador de The Washington Post, declarou: “Não aceito essa visão elitista de política exterior de que apenas uma classe ungida sabe tudo do mundo. Não creio que, em geral, eles sejam melhores juízes da política externa americana que aqueles com a experiência de Sarah Palin”.

É corajoso da parte de dezenas de líderes republicanos especialistas em política exterior assinar uma carta aberta condenando publicamente Trump e recusando apoio a sua candidatura. Mas lembro-me de, durante a última década, ter tido conversas com alguns desses líderes nas quais eles se recusaram a aceitar a ocorrência de qualquer problema no Partido Republicano, atribuindo as críticas a preconceito da mídia.

Ainda vemos essas negações, com a realmente bizarra acusação feita na mídia de que a subida de Trump é na verdade culpa de... Obama. A lógica varia. Para alguns, é porque Obama foi muito fraco. Em editorial, The Wall Street Journal disse que “o mais antigo truísmo da política é que os demagogos florescem quando não há liderança” (confesso nunca ter ouvido falar em tal “truísmo” e me pergunto como ele explicaria a ascensão do padre Coughlin e de Huey Long durante o reinado de Franklin Roosevelt, ou de Joseph McCarthy sob Dwight Eisenhower).

Para outros, contudo, é porque Obama tem sido forte demais, abusando do Poder Executivo e se colocando no centro do palco. Aparentemente, o fato de Oprah dividir o palco com alguém leva a populismo autoritário. Aqui vai uma explicação mais simples para Donald Trump. Os republicanos alimentaram no país as ideias de declínio, deslealdade, traição. Encorajaram as forças do anti-intelectualismo, obstrucionismo e populismo. Flertaram com a intolerância e o racismo.

Trump meramente optou por encampar isso tudo, sem que a vergonha o atrapalhasse e dizendo com todas as letras o que eles vinham sugerindo havia anos. Com isso, ganhou na loteria.

O problema não é os líderes republicanos não terem começado a condenar Trump no ano passado. O problema é que deveriam ter condenado as ideias e táticas que levaram a seu avanço quando elas começaram a florescer, no século passado. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É COLUNISTA

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