A história acaba, mas não como queriam os revolucionários

Análise: Samia Nakhoul / Reuters

O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2012 | 03h06

Eles depuseram um ditador, garantiram a primeira eleição livre da história, mas perderam para um islâmico radical. Não foi só isso. Os generais, que apoiavam Hosni Mubarak, permanecem no poder. A Irmandade Muçulmana diz que seu candidato, Mohamed Morsi, venceu o rival Ahmed Shafiq, mas uma manobra legal dos militares deixou claro quem manda no Egito. "É mais um sinal de luta pelo poder do que uma eleição de fato", afirmou Anthony Cordesman, membro do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos de Washington. "Não está claro quem governa, quem são os verdadeiros líderes e quem representará o povo. O que está nítido é que o Egito não está mais perto do que antes da estabilidade."

Na realidade, durante algum tempo o novo presidente estará subordinado ao conselho militar, composto pelos 20 membros que afastaram Mubarak no ano passado. No domingo, em uma reviravolta no caminho da democracia, os generais baixaram decreto estabelecendo limites estritos ao poder presidencial e reivindicaram para eles as prerrogativas do Parlamento, dissolvido na semana passada. "É a apólice de seguro deles contra uma vitória da Irmandade Muçulmana", afirmou Salman Shaikh, do Brookings Doha Center.

Para analistas, a luta pelo poder se intensificará entre o Exército e a Irmandade Muçulmana. "É o ápice de décadas de rivalidade entre o Exército e os islâmicos", disse Shaikh, que não descarta uma repetição do que ocorreu na Argélia, em 1992, quando o Exército dissolveu o Parlamento após uma eleição vencida pelos islâmicos. Ao atoleiro legal se junta outro fato: a decisão sobre a legalidade da Irmandade, banida durante a ditadura, que é aguardada para amanhã.

Segundo diplomatas, cabe aos EUA - o mais importante financiador do Exército egípcio - pressionar para que os militares transfiram o poder para os civis até 1.º de julho. Enquanto isso, a Irmandade contesta o poder dos militares para dissolver o Parlamento e alerta para "dias perigosos" à frente. Sua resistência, porém, é corroída por 16 meses de uma transição confusa. Segundo diplomatas, o grupo, proibido durante a ditadura, evitará confrontos de rua temendo dar a seus oponentes o pretexto para bani-lo novamente.

Para muitos, a revolução egípcia é vítima de um golpe militar que mudou seu principal dirigente, Mubarak, mas não tocou na situação que o mantinha no poder. Desde que destituiu a monarquia, em 1952, o Exército acumulou riqueza e interesses comerciais após a aliança com os EUA e a assinatura, em 1979, de um tratado de paz com Israel. Com essa rede de interesses, é improvável que os militares cedam poder.

A preocupação do Exército é que a Irmandade conteste sua posição, do mesmo modo que fizeram os islâmicos na Turquia. O Exército também teme que os radicais, com sua feroz retórica anti-israelense, debilitem o acordo com Israel. No aspecto regional, a ascensão da Irmandade também inquieta as monarquias árabes do Golfo, que sobreviveram à Primavera Árabe. Já os israelenses temem que a Irmandade favoreça o Hamas, em guerra com Israel. Apesar dos receios domésticos e regionais, a eleição foi algo sem precedentes, mas um presidente sem poder, um Parlamento dissolvido e um Exército dominante em um país sem Constituição não é o que os egípcios tinham em mente quando foram às ruas para destituir Mubarak. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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