A história brutal por trás do discurso de Putin na Crimeia

CENÁRIO: Ishaan Tharoor / Washington Post

O Estado de S.Paulo

10 Maio 2014 | 10h23

A visita de Vladimir Putin ontem a Sebastopol foi o sinal mais claro de que Moscou não desistirá do território agora que ele voltou à proteção da Rússia. Em seu discurso na cidade, sede da frota russa no Mar Negro, Putin saudou os heróis de antigas batalhas russas travadas nesse porto da Crimeia.

Em meados de março, após a Crimeia realizar um referendo sobre sua secessão da Ucrânia, Putin fez um pronunciamento triunfante em Moscou, justificando a tomada da península pela Rússia: "Tudo na Crimeia fala de nossa história e de nosso orgulho compartilhados", disse. Há uma razão para essa "memória histórica" ser tão poderosa, embora alguns possam argumentar que ela não seja motivo de tanto orgulho.

Uma quantidade espantosa de sangue russo foi derramada em Sebastopol e na Crimeia nos dois últimos séculos. E, embora Putin evoque esses sacrifícios como atos nobres e patrióticos, os extremos de miséria humana ali experimentados não deveriam ser esquecidos.

A Guerra da Crimeia (1853-1856) é descrita agora como um assunto caótico, digno de um pesadelo, por todas as potências europeias envolvidas, com líderes militares desastrados fazendo seus ataques patéticos para fins repulsivos. A famosa frase que soldados em combate eram "leões comandados por jumentos" surgiu das trincheiras e redutos cheios de lama que cercavam Sebastopol, que ficou sitiada por terríveis 349 dias, entre 1854 e 1855, até os russos finalmente se renderem.

Quase um século depois, um novo horror se abateu sobre a Crimeia, quando soldados nazistas invadiram a península, em 1941, como parte de uma invasão maior à União Soviética. Cerca de 20 mil pessoas foram mortas. É uma perda de vidas assombrosa que os russos têm o direito de lembrar. No entanto, a retórica nacionalista de Putin acaba empanada pela ameaça de uma nova guerra em uma parte do mundo que já as teve de sobra. / Tradução de Celso Paciornik

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