A história de sucesso da Tunísia

Transição política no país sugere que não há nada no Islã ou na sociedade árabe que torne inviabilize a democracia

FAREED , ZAKARIA , THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2014 | 02h02

Mais de 20 anos atrás, o pesquisador Samuel Huntington formulou seu famoso "teste das duas transições" para democracias nascentes. Um país só pode ser considerado uma democracia consolidada, ele dizia, quando experimentou ao menos duas transições pacíficas de poder. Na semana passada, com sua segunda eleição parlamentar, a Tunísia passou no teste de Huntington.

O sucesso relativo da Tunísia é um contraste gritante com o fracasso fragoroso do Egito, o maior e antes o mais influente país do mundo árabe. Como na Tunísia, os egípcios também derrubaram um ditador há três anos. No entanto, depois de um breve experimento com democracia em que a Irmandade Muçulmana foi eleita e depois abusou de sua autoridade, o país é governado hoje por uma ditadura.

Perguntei recentemente a um egípcio liberal e secular do Cairo, que esteve envolvido no levante popular contra Hosni Mubarak, se o atual regime lembra um retorno à velha ordem. "Ah, não", disse ele. "Este é muito mais brutal, repressivo e cínico do que o de Mubarak." Há uma semana, por exemplo, o presidente do Egito, Abdel-Fattah al-Sissi, emitiu um decreto autorizando o julgamento de mais civis em tribunais militares.

Mas por que a Tunísia foi bem-sucedida onde o Egito fracassou? Analistas dos dois países ofereceram várias respostas, mas a mais comum é que os islamistas da Tunísia eram simplesmente melhores que os do Egito. Nos dois países, partidos islâmicos venceram a primeira eleição. Mas, como muitos comentaristas afirmaram, o partido Ennahda, da Tunísia, que é um equivalente aproximado da Irmandade Muçulmana do Egito, procurou dividir o poder, ao passo que seus irmãos egípcios, não.

O Ennahda não procurou instituir a sharia (lei islâmica), explicitou seu respeito à legislação progressista sobre direitos das mulheres da Tunísia e voluntariamente cedeu poder a um governo tecnocrático de unidade nacional no início do ano, quando enfrentou protestos populares.

A lição parece ser que a Tunísia simplesmente teve sorte: seus islamistas eram do bem, a exceção à regra de que os islamistas são teocratas cujo compromisso com a democracia só se estende a um homem, um voto e uma voz.

Moderação. No entanto, Tarek Masoud, autor de um fascinante livro sobre islamistas e as eleições intitulado Counting Islam, sugere que o sucesso da Tunísia e o fracasso do Egito têm menos a ver com as qualidades de seus islamistas do que com diferenças profundas nos ambientes políticos desses países.

No Egito, argumenta Masoud, os islamistas conseguiram vencer partidos seculares nas primeiras eleições depois que Mubarak foi deposto porque puderam aproveitar a rica rede de mesquitas e associações islâmicas do país para atingir os cidadãos. Os partidos seculares não tinham nada parecido. Assim, após perderem eleição após eleição, eles se voltaram para o Exército para derrubar os resultados das urnas.

A Tunísia foi uma história diferente, diz Masoud. Mais desenvolvida, mais urbana, mais alfabetizada e mais globalizada do que o Egito, o país sempre teve uma sociedade civil mais diversificada - sindicatos mais fortes, associações civis, organizações profissionais - e, por isso, houve uma relativa paridade entre islamistas e seus adversários. Embora os islamistas tenham se saído bem nas primeiras eleições na Tunísia, o mesmo ocorreu com os não islamistas.

O Ennahda conquistou uma maioria apenas simples na primeira legislatura livremente eleita do país - bem menos do que a maioria conquistada por partidos islamistas no Egito - e teve de governar em coalizão com dois partidos seculares.

Ele compartilhou o poder não porque fosse mais generoso que a Irmandade Muçulmana, mas porque teve de fazê-lo. E os adversários do Ennahda se aferraram ao jogo democrático depois de perder, em vez de apelar para o Exército, porque eles, diferentemente dos partidos seculares egípcios, sentiram corretamente que teriam a oportunidade de vencer no futuro - como de fato fizeram na semana passada (a sorte da Tunísia é que seu Exército sempre foi subordinado à autoridade civil).

Riscos. Em 1939, Walter Lippmann disse que a resistência da democracia repousa em um "equilíbrio de poder político suficiente" entre governo e oposição, para que o primeiro não se torne "arbitrário" e o último, "revolucionário e irreconciliável".

Masoud observa que esse equilíbrio de poder existiu na Tunísia, mas não no Egito. "Os muitos testemunhos da presciência dos líderes políticos da Tunísia, a moderação de seus islamistas e o respeito de seus militares às instituições civis obscurecem um fato muito mais básico", diz ele. "A Tunísia oferecia um terreno mais fértil ao pluralismo."

Pode ser muito cedo para celebrar o sucesso da Tunísia, é claro. O país tem uma taxa de desemprego dos jovens em torno de 30%. Além disso, o governo está enfrentando militantes islamistas em casa e reportagens recentes sugeriram que a única democracia do mundo árabe é também a maior exportadora de combatentes que saem para se unir ao Estado Islâmico. Isto talvez se deva ao fato de a Tunísia ser relativamente aberta e seus jihadistas acharem que despertam pouco interesse no país.

No entanto, o sucesso da Tunísia - até agora - sugere que não há nada no Islã ou na sociedade árabe que torne impossível a democracia se enraizar. Como seria verdade em qualquer parte, é preciso algumas condições favoráveis, boa liderança e, por que não, uma pitada de sorte. / TRADUÇÃO DE CELSO DE PACIORNIK

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