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A história de uma imigração bem sucedida que acabou após o golpe em Mianmar

Os destinos de Bo Bo Nge e de muitos intelectuais, advogados e jovens líderes detidos no golpe militar que depôs o governo civil de Aung San Suu Kyi são o símbolo reiterado das esperanças despedaçadas de um futuro melhor em Mianmar

Shibani Mahtani / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 20h00

HONG KONG - A trajetória de Bo Bo Nge resume o brilhantismo e a coragem de sua geração: preso quando estudante por protestar contra o regime militar, em 1988, ele passou anos aprendendo inglês com páginas de dicionário levadas clandestinamente para sua cela em Yangon. Depois que foi solto e continuaram a persegui-lo, ele fugiu para os Estados Unidos.

Bo Bo Nge começou vida nova, ascendeu de lavador pratos a economista que ganha centenas de milhares de dólares ao ano. Mas seu coração nunca deixou Mianmar e, armado com um PhD, ele voltou ao país-natal quando a transição democrática começou - o que levou à sua nomeação, em 2017, à vice-presidência do Banco Central, onde trabalhou com outras pessoas que também lutaram pela democracia três décadas antes.

Pouco após o amanhecer do dia 1.º de fevereiro, cinco soldados bateram na porta da casa de Bo Bo Nge na capital de Mianmar, Naypyidaw, e exigiram que ele os acompanhasse, de acordo com sua mulher. Nem ela nem os amigos tiveram notícias dele desde então.

Os destinos de Bo Bo Nge e de muitos intelectuais, advogados e jovens líderes detidos no golpe militar que depôs o governo civil de Aung San Suu Kyi são o símbolo reiterado das esperanças despedaçadas de um futuro melhor em Mianmar. Esses reformadores e tecnocratas, cujas habilidades e experiência ajudaram a recuperar o antiquado sistema financeiro do país nos anos recentes, estão agora silenciados e sujeitos aos caprichos de generais isolacionistas.

Ao mesmo tempo, as forças de segurança de Mianmar reprimem manifestantes, matando 18 no domingo. Mais de 1.130 pessoas, incluindo Bo Bo Nge, foram presas desde o golpe.

Sua situação se torna ainda mais difícil em razão de seus problemas de saúde e da fragilidade da economia de Mianmar, já prejudicada pela pandemia de coronavírus. Os bancos fecharam as portas, enquanto centenas de milhares de pessoas, incluindo os caixas bancários, resistem ao golpe recusando-se a ir trabalhar, levando o sistema econômico à beira do colapso.

Os poucos bancos ligados aos militares que permanecem abertos restringiram o número de clientes, enquanto o banco central limita o valor máximo de saques nas instituições financeiras, o que eleva o temor de escassez de dinheiro vivo.

“Quando alguém como Bo Bo voltava para Mianmar, era como uma brisa no deserto”, afirmou Ba Win, ex-diretor da Bard College em Simon's Rock, que ajudou Bo Bo Nge a se mudar para os EUA. Bo Bo Nge, acrescentou ele, “tinha o treinamento intelectual e a disciplina necessários para tratar de assuntos econômicos de uma maneira que transcende os interesses políticos locais”.

Em entrevista à revista Frontier, Win Thaw, o escolhido dos militares para substituir Bo Bo Nge, acusou os manifestantes nas ruas e quem participa do movimento de desobediência civil de “destruir a economia de seu próprio país”. “As políticas de cada governo diferem entre si, mas deveriam ter um objetivo comum, que é desenvolver o país e não prejudicar as pessoas”, disse ele. O governo militar, acrescentou ele, está “fazendo seu melhor”.

Páginas clandestinas

No primeiro período que passou preso, Bo Bo Nge ficou detido em Insein, em Yangon, onde ele cumpriu pena de mais de quatro anos por participar do levante pró-democracia de 1988, que o regime militar esmagou brutalmente. O amplo complexo prisional é um dos marcos mais visíveis da cidade, onde, por trás dos fortificados portões de metal, prisioneiros foram submetidos a tortura e outros tratamentos desumanos. Lá, a saúde de Bo Bo Nge começou a se deteriorar, e seus dentes apodreceram em razão da negligência, afirmam amigos e a família.

Encarcerado com acadêmicos e intelectuais, ele foi exposto a elevadas discussões a respeito de história, economia e filosofia. Ele e outros prisioneiros conseguiam enterrar páginas de dicionário de inglês trazidas clandestinamente para dentro da prisão no chão lamacento das celas e as estudavam vorazmente quando os guardas não estavam por perto. Quando foi solto, em 1993, Bo Bo Nge era fluente na língua e, depois de uma temporada exportando tubérculos que colhia no Lago Inle de Mianmar para a Coreia do Sul, ele se mudou para a verdejante região montanhosa de Berkshires, nos EUA, onde frequentou a faculdade comunitária.

“Ele se mostrou imediatamente prestativo, gentil e muito bondoso”, afirmou Marion Lathrop, de 84 anos, que o abrigou com o marido, Don, que na época lecionava na Faculdade Comunitária de Berkshire. “Era difícil entender por que alguém com essa natureza teve de enfrentar esse tipo de provação.”

Imediatamente, afirmaram amigos, Bo Bo Nge arregaçou as mangas, tirou carteira de motorista e comprou um carro para se locomover entre empregos irregulares e a faculdade. Em 2001, dois anos depois de chegar aos EUA, conseguiu uma bolsa de estudos na Bard College e, depois de se formar, cursou mestrado em economia na Universidade Johns Hopkins.

Ao longo desses anos, ele manteve uma relação amorosa à distância com sua futura mulher, Hnin Wai Lwin, mais conhecida por seu apelido, Me Kyi, que ele conheceu no Lago Inle, na loja em que ela vendia bugigangas aos pés de um famoso templo budista. As chamadas internacionais entre o casal eram fonte de entretenimento no vilarejo em que ela vivia - antes de o casal se reunir em Massachussetts, sete anos depois da partida dele, relatam vários amigos.

O primeiro emprego fixo de Bo Bo Nge foi em uma subsidiária do Instituto Americano de Pesquisa Econômica, que, por fim, passou a pagar-lhe centenas de milhares de dólares ao ano - concretizando a história de sucesso de um imigrante nos EUA. Os colegas ficavam “imediatamente arrebatados por seu brilhantismo”, afirmou Seth Hoffman, atual vice-presidente daquela subsidiária, a American Investment Services.

“Dadas suas habilidades particulares, Bo Bo poderia ter avançado, se fosse reorientado a uma outra direção, para trabalhar na divisão de obrigações de um grande banco de investimentos”, afirmou Hoffman. “Ele poderia ter uma vida muito mais confortável.”

Ausência de líderes qualificados

Mas, entusiasmado com a esperançosa, ainda que incerta, transição para a democracia conduzida pelos militares a partir de 2010, Bo Bo Nge queria “algo mais do que ganhar dinheiro”, de acordo com Ba Win. Inspirado por uma conversa que teve com o colega a respeito da ausência de líderes qualificados em Mianmar - os militares fecharam as melhores universidades do país após o levante de 1988 e as reabriram somente em 2014 - Bo Bo Nge cursou doutorado na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos em Londres, onde Suu Kyi foi estudante e pesquisadora na década de 80.

Quando Bo Bo Nge retornou a Mianmar para integrar o governo como vice-presidente do Banco Central, em 2017, os militares haviam cedido parte do controle do país para a liderança civil, e a economia estava fazendo grandes avanços. O índice de pobreza tinha diminuído pela metade em relação a uma década atrás, o crescimento estava melhorando, e os reformistas estavam liderando mudanças na política, mantendo a inflação baixa e modernizando o banco central.

No golpe recente, vários dos principais conselheiros econômicos de Suu Kyi foram detidos, incluindo o economista australiano Sean Turnell e Min Ye Paing Hein, ex-economista do Banco Mundial que era vice-ministro da Indústria. Não se ouviu falar de nenhum deles desde quando foram levados pelas autoridades.

Enquanto os militares se aferram ao poder e a chance de reconciliação vai se esvaindo, os países da União Europeia e outros governos do Ocidente estão preparando sanções contra os generais de Mianmar e seus interesses econômicos, após os EUA já terem agido nesse sentido.

Enquanto isso, uma greve geral em 22 de fevereiro conferiu ímpeto ao movimento de desobediência civil em Mianmar. Muitos que participam dessa resistência afirmam que sacrificar a economia é a única maneira que têm para derrubar a junta militar e conquistar a democracia.

Zaw Zaw, de 41 anos, dono de uma confecção em Yangon, afirmou que vendeu um apartamento e o carro para apoiar aqueles que estão abrindo mão dos salários para participar dos atos de desobediência contra o regime militar. Logo ele ficará sem ter o que vender, admite ele, mas afirma que fará de tudo para manter viva a resistência.

“A economia do país já estava em perigo” antes do golpe, disse ele. “Com os generais convocando ou não eleições daqui a um ano, como prometeram, a economia vai desabar da qualquer maneira. Então vale a pena sacrificar tudo para derrubá-los.”

Saúde frágil

Desde que o marido foi preso, no dia 1.º de fevereiro, Hnin Wai Lwin tem dificuldade para dormir e sofre de perda do apetite. Memórias de fatos simples - de quando chegaram aos EUA ou a idade de seu marido - estão desaparecendo ou ficando confusas. Ela foi levada para o Estado de Shan, no norte do país, longe da capital controlada pelos militares, Naypyidaw, para sua segurança e de seu filho, de 5 anos, que, segundo ela, tem perguntado pelo pai, sem conseguir entender o que aconteceu.

Ela não consegue parar de pensar na saúde do marido, que tem mais de 50 anos, e se o limitado estoque de remédios que ela colocou na mala dele antes de ser levado pelos soldados já acabou. Em uma entrevista, ela afirmou que ele sofre de doença gastrointestinal e hipertensão e precisa de tratamento.

“Minha saúde também está ruim, e não estamos juntos”, afirmou ela. “Estou desolada. Deveríamos estar juntos, seja qual for a circunstância.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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