Auschwitz-Birkenau Museum and Memorial
Auschwitz-Birkenau Museum and Memorial

A história do herói polonês que revelou os horrores de Auschwitz

Wotold Pilecki aceitou ser preso e enviado ao campo, de onde enviou mensagens à resistência 

Gillian Brockell /The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 07h00

Foi só nos anos 90 que Zofia e Andrzej Pilecki descobriram que o pai era um herói. Quando adolescentes na Polônia do pós-guerra, foram informados de que ele era um traidor que foi executado em 1948. Na verdade, Witold Pilecki era da resistência polonesa, enviado voluntariamente a Auschwitz para enviar mensagens secretas ao comando Aliado, tornando-se o primeiro a alertar para os horrores do campo de extermínio nazista. 

Auschwitz lembrou ontem dos 75 anos de sua libertação. Em seu novo livro – O voluntário: um homem, um exército subterrâneo e a missão secreta para destruir Auschwitz –, o ex-correspondente de guerra Jack Fairweather revela a história do heroísmo de Pilecki. Nascido em 1901, filho de aristocratas poloneses, ele lutou contra a invasão soviética, de 1919 a 1921, recebendo condecorações por bravura. Depois de herdar as terras da família, assumiu a vida no campo, casou-se e teve dois filhos.

Quando os nazistas invadiram a Polônia, em 1939, Pilecki foi convocado para o serviço militar. Os poloneses, porém, se renderam em menos de um mês e ele entrou na clandestinidade. “A resistência francesa é mais famosa, só que mais da metade de toda a inteligência da Europa vinha do submundo polonês”, afirma Fairweather. 

No momento em que muitos poloneses se voltavam contra os judeus, Pilecki pressionou para manter a resistência polonesa como um grupo convencional com direitos iguais para todos. Foi quando ele conseguiu sua primeira grande missão: ser preso e enviado a Auschwitz. 

Na época, o local era conhecido por ser um campo de trabalho nazista para prisioneiros de guerra poloneses. Pilecki deveria reunir informações sobre as condições do lugar e organizar uma célula de resistência, talvez até um levante. A missão era voluntária. Ele poderia ter recusado. Mas, em 18 de setembro de 1940, ele se meteu no meio de uma blitz da Gestapo e foi enviado para Auschwitz.

Nada poderia tê-lo preparado para a brutalidade que encontrou. Quando saltou de um trem, foi espancado com paus. Dez homens foram aleatoriamente retirados do grupo e baleados. Alguém perguntou a um preso sua profissão. Quando ele disse que era médico, foi espancado até a morte. Quem havia estudado ou era judeu acabou torturado. Os outros eram roubados, despidos, tinham a cabeça raspada, ganhavam um número e uma roupa listrada. 

“Que ninguém pense que deixará este lugar vivo”, disse um guarda da SS. “As rações foram calculadas para que vocês sobrevivam apenas seis semanas.” As câmaras de gás ainda estavam sendo feitas, mas o crematório já funcionava. A única saída de Auschwitz, disse outro guarda alemão, era pela chaminé.

Foram dois anos e meio de horror. Prisioneiros passavam fome e viviam infestados de piolhos e percevejos. Surtos de tifo dizimavam o campo. Os trabalhos eram exaustivos. Em desespero, muitos roubavam migalhas uns dos outros. Alguns se matavam pulando na cerca eletrificada.

Lentamente, Pilecki organizou uma rede para distribuir comida e roupas, sabotar os planos nazistas, esconder presos feridos e doentes. A partir de outubro de 1940, eles conseguiram enviar mensagens para fora do campo por meio de presos libertados após subornos pagos pelas famílias aos guardas. O primeiro foi Aleksander Wielopolski, que memorizou um relatório preparado por Pilecki – que temia enviar informações em papel. 

Wielopolski passou a mensagem à resistência, mas Pilecki nunca soube se ela havia chegado ao comando Aliado – Fairweather, porém, foi capaz de rastrear como os alertas viajaram pela Europa até chegar ao alto escalão do governo em Londres.

Bombardear Auschwitz como um gesto de misericórdia

Sua primeira mensagem foi direta: bombardear Auschwitz – mesmo que isso significasse matar todo mundo – era um gesto de misericórdia. Londres até considerou o pedido, no início de 1941, mas desistiu. Os EUA não haviam entrado na guerra e a Força Aérea britânica tinha menos de 200 aviões, todos sem radar e sem capacidade de combustível para atingir Auschwitz. 

Nos dois anos seguintes, Pilecki continuou a enviar mensagens por meio de fugas arriscadas de prisioneiros e notas passadas para fazendeiros poloneses vizinhos ao campo. Elas iam ficando cada vez mais sombrias: experiências médicas nazistas repugnantes em pacientes, execuções em massa de prisioneiros de guerra soviéticos, testes com câmaras de gás. 

O campo se expandia. Trens chegavam abarrotados de judeus, que eram mortos e cremados. Centenas de milhares de homens, mulheres e crianças vinham sendo assassinados. Na primavera de 1943, estava claro que os Aliados não ajudariam os prisioneiros de Auschwitz. 

Sem intervenção de fora, uma revolta nunca teria sucesso. Cada vez mais fraco e correndo risco de ser descoberto, Pilecki decidiu que era hora de partir. Demorou meses para planejar uma fuga, mas ele e dois amigos conseguiram escapar pela padaria de Auschwitz nas primeiras horas de 27 de abril. De lá, ele foi para Varsóvia, onde reencontrou a mulher e os filhos.

Pilecki voltou a atuar na resistência, mas o estresse pós-traumático afetou sua vida. Ele não conseguia mais se relacionar com amigos e parentes e não parava de escrever sobre os horrores que havia testemunhado.

Os soviéticos libertaram Auschwitz em 27 de janeiro de 1945. Em menos de cinco anos, os nazistas haviam matado 1,1 milhão de pessoas no campo, a maioria judeus. A Polônia passaria os próximos 40 anos como um Estado fantoche da União Soviética. Mas Pilecki não viveu para ver. Ele permaneceu fiel à ideia de uma Polônia livre e continuou municiando a inteligência britânica. Em 1947, foi preso pelos comunistas, torturado e executado como inimigo do Estado no ano seguinte.

Os relatórios de Pilecki permaneceram escondidos nos arquivos poloneses até os anos 90, quando sua reputação começou a ser recuperada. Hoje, ele é um herói e um símbolo de como os poloneses foram forçados a enterrar suas histórias da 2.ª Guerra.

 

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