A história não contada do abuso sexual militar

Quando um soldado é estuprado, a segurança nacional é posta em risco

MICHAEL F. , MATTHEWS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2013 | 02h03

Era 1974, eu tinha 19 anos, servia na Força Aérea dos EUA e pensava que era o único.

Era o começo da primavera e eu havia encerrado meu trabalho no complexo de mísseis Minuteman na Base de Whiteman, no Missouri. Sujo e cansado, consegui chegar ao refeitório quase na hora de fechar. Voltando para meu dormitório, no fim do dia, peguei um atalho por um canteiro de obra.

Algo me atingiu na cabeça e eu perdi a consciência. Quando voltei a mim, havia dois homens me segurando. No início, pensei que algum objeto havia caído e me atingido, que aqueles homens tentavam me ajudar. Logo percebi que estavam me contendo. Quando resisti, eles deram socos na minha cabeça. Mandaram eu me calar, caso contrário, me matariam.

Um terceiro homem puxou minhas calças e abaixou minha cueca. "Aposto que você vai gostar disso", ele disse.

A dor era insuportável, mas tudo no que eu pensava era nas coisas que não havia feito na vida, porque acreditava que eles me matariam. Quando terminaram, os três começaram a me chutar, enquanto eu estava deitado no chão, em posição fetal para me proteger.

"Se você contar para alguém, vamos voltar e matá-lo", eles disseram. Tudo que eu senti naquele momento foi o alívio intenso porque ia viver.

Embora pudesse perceber que eles eram colegas de uniforme, estava escuro demais para eu ver seus rostos. Não sei quanto tempo fiquei ali deitado, mas me recompus, enfim, e voltei para o dormitório. Era uma noite de sexta-feira e meu colega de quarto tinha ido passar o fim de semana em casa. Aliviado por não ter de me explicar, fui até a pia e me limpei como pude.

Eu me isolei durante o resto do fim de semana, evitando as pessoas. Quando voltei ao trabalho, na segunda-feira de manhã, alguns rapazes viram as contusões. "O que houve com você?", eles perguntaram. "Fui num bar e me meti numa briga", eu disse. Todos riram.

Eu não era o único. Segundo o Relatório de Abuso Sexual Militar do Departamento de Defesa de 2012, aproximadamente 26 mil membros das Forças Armadas dos EUA, tanto homens quanto mulheres, sofreram abusos sexuais no ano passado. Desses ataques, 53% - cerca de 14 mil - foram contra homens. A vasta maioria dos agressores é de homens que se identificam como heterossexuais.

Esses fatos, já são apavorantes, mas quando corporações como as forças militares, sistemas fechados e pouco fiscalizados, não validam a experiência do sobrevivente de estupro, os agressores se sentem à vontade para continuar com seu comportamento criminoso sem consequências.

Eu mantive meu segredo por 30 anos. Jamais contei.

Continuei servindo na Força Aérea por 20 anos e dei baixa com patente de suboficial. Depois, pulei de emprego civil em emprego civil. Por fim, me estabeleci na Base da Força Aérea de Kirtland, em Albuquerque, e me tornei administrador dos Laboratórios de Pesquisa da Força Aérea, antes de ser aposentado por problemas nas articulações.

Mas meus verdadeiros problemas eram psicológicos. A agressão sexual, seja na vida militar ou na civil, é uma questão de abuso de poder, controle e dominação. As cicatrizes duradouras são psíquicas. Eu sofri de depressão. Meus relacionamentos pessoais, perturbados, sempre fracassavam. Cometi várias tentativas de suicídio - depois da última, fui parar diante de uma experiente assistente social do centro médico do Departamento de Assuntos de Veteranos (VA, na sigla em inglês) em Northport, Nova York.

Minha recusa em aceitar a realidade era forte: eu inventava todo tipo de razão sobre por que estava deprimido. Aí, um dia, no meio de uma sessão de aconselhamento, ela me perguntou de maneira seca e direta: "E por que você não me fala sobre o estupro?".

Após toda dor e humilhação, foi um alívio finalmente me livrar desse segredo que vinha carregando há tantos anos. Numa sessão posterior, eu lhe perguntei como ela soube.

"Já aconselhei uma porção de veteranos homens que foram estuprados durante o serviço militar. Eu simplesmente tive a intuição de que era esse o seu problema também", disse ela.

Demorei um pouco, mas me entrei numa jornada para compartilhar minha história com outros sobreviventes de trauma sexual militar - ou MST (sigla em inglês para military sexual trauma), como o VA chama o estupro e outras formas de abuso e assédio sexual - como uma maneira de me ajudar.

Meu juramento militar não tem prazo de validade. Como militar não comissionado da reserva, sou obrigado a defender os que sofreram esse crime odioso. Homens e mulheres que servem são meus irmãos e irmãs; quando um de nós sofre violência sexual, isso põe em risco a segurança nacional de nosso país. Os agressores raramente enfrentam as consequências de seus atos, mas às vezes sinto que eles deveriam ser julgados por traição.

Com o apoio do público, esperamos persuadir o Congresso a aprovar a lei mais abrangente até agora sobre abuso sexual militar: o Sexual Assault Training Oversight and Prevention Act, impulsionado pela deputada Jackie Speier, democrata da Califórnia, que se dedica fazer justiça para vítimas de estupro em ambiente militar.

As outras propostas legislativas importantes em discussão são falhas. A senadora Claire McCaskill propõe que uma comissão civil avalie casos em que comandantes decidiram não processar suspeitos. A senadora Kirsten E. Gillibrand quer investigar os casos e fazer os processos fora da cadeia de comando, mas dá à Justiça Militar esse poder. Nós acreditamos que nenhuma dessas medidas cria a sólida supervisão civil à Justiça Militar de que as vítimas precisam. Somente a lei proposta por Jackie Speier poderá prover uma assistência posterior aos sobreviventes - ou ao menos assegurar-lhes que não serão agredidos após retornar ao serviço.

Guardar meu segredo fez de mim um suicida. Tenho sorte de estar vivo. Agora, segundo estimativas do VA, 22 veteranos tiram as próprias vidas por dia. A suposição natural é que esses suicídios tenham relação com estresse de combate, mas pesquisas recentes mostraram que a atuação em zonas de guerra teve pouca ou nenhuma influência nos índices.

Precisamos considerar se essa epidemia trágica tem outras causas, não relacionadas com missões de combate. Um estudo com integrantes da Força Aérea publicado no começo do ano revelou que as vítimas de estupro eram seis vezes mais propensas a pensar em suicídio. Meu ativismo continua. Eu me fortaleço no fato de que agora sei que não estou sozinho. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CRIADOR DE 'JUSTICE DENIED', DOCUMENTÁRIO SOBRE ABUSO SEXUAL MILITAR MASCULINO

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