Kevin D. Liles / The Washington
Kevin D. Liles / The Washington

A história que Raphael Warnock quer escrever

Pregador batista nascido e criado na Geórgia será o primeiro senador negro de seu estado, quebrando uma barreira repleta de significados na política americana

Astead W. Herndon, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 20h18

GARDEN CITY, GEÓRGIA – São tão poucos os democratas negros eleitos para o Senado que, quando a vice-presidente eleita Kamala Harris fez campanha para o reverendo Raphael Warnock em Savannah esta semana, os dois falaram muito, mesmo que não intencionalmente, sobre a representação racial na política.

Em termos puramente partidários, uma líder do Partido Democrata estava tentando mobilizar eleitores para uma importante eleição de segundo turno para o Senado, cujos resultados determinarão se o controle da casa será democrata ou republicano. Mas também foi uma rara chance para uma mulher que rompera barreiras no Senado passar a tocha para um homem que ela espera que seja mais um rompedor de barreiras. Harris foi a primeira mulher negra a assumir o cargo de senadora pela Califórnia. Warnock está tentando se tornar o primeiro senador negro da Geórgia.

Durante seu discurso no evento com Harris, Warnock contou ter sido preso por policiais no Capitólio dos Estados Unidos durante protestos e manifestações políticas ao longo dos anos.

“Não fiquei bravo com eles. Eles estavam fazendo o trabalho deles e eu estava fazendo o meu”, disse Warnock. “Mas, daqui a alguns dias, vou reencontrar aqueles policiais do Capitólio e, desta vez, eles não vão me levar para a delegacia. Eles vão me ajudar a encontrar meu novo escritório”.

Se Warnock tiver sucesso, será o ápice de um ciclo eleitoral no qual, horas depois de Biden ser declarado presidente eleito, ele disse aos eleitores negros em seu discurso de vitória: “Vocês sempre estiveram lá por mim, agora estarei lá por vocês”.

Também será um salto geracional para os democratas negros do sul.

Warnock, 51 anos, pastor que assumiu o púlpito da Igreja Batista Ebenezer, onde o reverendo Martin Luther King Jr. pregara, durante a campanha falou sobre suas experiências de vida como negro nascido e criado no sul. Ele está concorrendo a um cargo em um estado onde as pessoas de bairros predominantemente negros esperaram em filas desproporcionalmente longas para votar no ano passado e onde um estudo revelou que mais de 80% dos moradores do estado hospitalizados por coronavírus eram negros – vestígios de um racismo estrutural nos sistemas de saúde e da democracia.

O poder político no antigo sul das leis Jim Crow, onde poucos negros americanos foram eleitos para cargos estaduais, está inextricavelmente ligado à raça. E o lugar de Warnock no universo político é diferente da eleição de Harris, ou de nortistas como o ex-presidente Barack Obama, ex-senador por Illinois, e o senador Cory Booker, de Nova Jersey.

Juntos, Warnock e Jon Ossoff, o outro candidato democrata, têm a chance de expandir a agenda legislativa do novo presidente Joe Biden. Mas apenas Warnock estava tentando quebrar uma barreira continuamente reforçada no sul, cristalizada em um ditado que ficou popular durante o movimento pelos direitos civis: “O sul não se importa quando os negros chegam perto, desde que não subam muito alto”.

Na terça-feira, democratas negros da Geórgia disseram que essa história termina aqui. E que o partido demorou demais para buscar seriamente a possibilidade de sucesso na Geórgia.

“Os democratas demoraram uma eternidade para investir na Geórgia”, disse Frazier Lively, 71 anos, que mora em Macon e participou de um comício recente. “Agora temos esperança de que o que está acontecendo aqui seja uma mensagem para o que é possível fazer”.

Ao longo das primárias e da eleição presidencial, os democratas tiveram de lutar com questões de representação racial, elegibilidade e como equilibrar uma coalizão multicultural crescente com aqueles que estão mais focados em políticas transformacionais. Nas primárias, os eleitores negros mais velhos recusaram candidatos negros como Booker e Harris em favor de Biden, na crença de que ele teria mais chances de derrotar Trump. Os progressistas – e particularmente os eleitores mais jovens – apoiaram candidatos mais liberais, como o senador Bernie Sanders, de Vermont.

O reverendo William Barber II, copresidente da Campanha dos Pobres, disse que todos os políticos, até mesmo os negros, no final das contas são julgados por suas políticas, mesmo que sejam figuras que quebram barreiras.

“Políticas, políticas, políticas, esta é a única razão pela qual você elege pessoas: para forçar as políticas públicas”, disse ele, repetindo a palavra para dar ênfase ao argumento. “Os negros não são eleitos apenas para ocupar o cargo. E a verdade é que os políticos negros do estado, do Congresso, do Senado, eles têm que se perguntar: será que estamos colocando essas questões no centro das nossas políticas?”.

Uma questão urgente para todos os candidatos em 2020, especialmente os democratas, foi o verão do acerto de contas racial. Na Geórgia, o assassinato de Ahmaud Arbery em fevereiro de 2020 gerou protestos e casos isolados de danos à propriedade e pôs muita pressão sobre as autoridades públicas – incluindo as negras.

Warnock, então nos primeiros estágios de sua corrida para o Senado, militou no movimento por justiça social pela primeira vez como candidato a um cargo público, e não apenas como pastor. As palavras ficaram mais comedidas e as acusações contra a América Branca, menos pungentes, pois ele e outros democratas estavam tentando canalizar a raiva da comunidade para um propósito eleitoral.

Mas nenhuma escolha cuidadosa de palavras – nem propagandas de televisão com slogans promissores e cachorrinhos – poderia impedir que sua candidatura se tornasse um para-raios em uma época definida por raça, queixas raciais e pessoas tentando capitalizar com sua reação. Depois que a eleição geral terminou e que ficou claro que haveria um segundo turno contra a senadora Kelly Loeffler, Warnock virou o alvo de um ataque total dos conservadores, que tentaram caracterizá-lo como um radical inexperiente que era contra os valores da Geórgia. Loeffler, republicana, usou trechos de seus sermões no púlpito da Igreja Batista Ebenezer, apresentando declarações fora de contexto sobre os militares e Israel.

Embora os republicanos em grande medida ignorassem a candidatura de Ossoff em seus comícios, eles miraram em Warnock repetidas vezes.

“Warnock é o candidato de esquerda mais radical e perigoso na disputa pelo cargo, com certeza no estado da Geórgia, e ele não tem os nossos valores”, disse Trump em seu comício em Dalton, Geórgia, na segunda-feira.

Mas não cabe a Trump definir os valores da Geórgia. Os eleitores deixaram isto claro em novembro, quando Biden ganhou o estado – um resultado que o presidente continua questionando, sem fundamentos. A população da Geórgia – e com ela, talvez, seus valores – está mudando. As populações latinas e asiático-americanas do estado estão crescendo, e os subúrbios estão atraindo eleitores mais jovens e moderados com ensino superior.

Talvez seja por isso que candidato Warnock soa menos como pastor Warnock e mais como Stacey Abrams, a democrata da Geórgia cuja estratégia de participação eleitoral enfatiza especificamente o multiculturalismo, em vez da negritude.

Em uma entrevista recente, ao falar sobre como a Geórgia se tornou um bastião democrata, Abrams disse que tenta não se concentrar em um grupo em detrimento de outro.

“Quero que deixemos muito claro que isso requer o investimento e o apoio de várias comunidades”, disse Abrams. “Esta é uma coalizão multirracial, multiétnica e multigeracional. Não gosto quando damos primazia a um grupo em exclusão do outro”. / Tradução de Renato Prelorentzou

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