A história que Roosevelt escreveu

Papéis incluem carta do pai de Kennedy questionando guerra

Sam Roberts, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Um mês após os nazistas invadirem a Polônia, em 1939, Joseph P. Kennedy, embaixador americano em Londres e pai de um futuro presidente, manifestou sérias dúvidas a respeito "da guerra idealista" contra Hitler. "Não consigo perceber nenhuma utilidade em todo mundo na Europa quebrar e deixar o comunismo tomar conta", escreveu Kennedy a Marguerite LeHand, secretária pessoal do presidente Franklin D. Roosevelt. "Estou convencido de que a economia da Alemanha teria cuidado de Hitler muito tempo atrás se ele não tivesse tido a chance de levantar toda hora esta bandeira." "Mas, evidentemente, não podemos falar isso em voz alta."

A carta de Kennedy é um dos nove documentos divulgados na quarta-feira pelos Arquivos Nacionais em Washington, e faz parte de um acervo de cartas, minutas e notas relativas à presidência de Roosevelt que será divulgado em breve. David S. Ferriero, diretor dos arquivos nacionais, disse que o restante dos documentos, que pertenceram a Grace Tully, a última secretária de Roosevelt, deverá ser divulgado em novembro.

Os papéis incluem uma lista de leis fundamentais para a recuperação; uma recomendação para promover o coronel George C. Marshall; uma nota de congratulações de Mussolini depois da eleição de Roosevelt, em 1932; e uma carta de Lucy Mercer Rutherford, com a qual Roosevelt teve um caso. "Pode-se perceber realmente o processo mental de Roosevelt", disse Robert W. Clark, supervisor da Biblioteca Presidencial Franklin D. Roosevelt, em Nova York, que faz a revisão dos documentos. "Ele nunca escreveu memórias, não era o tipo de pessoa dada a reflexões. Isso mostra que ele tomava instintivamente decisões que sabia ser adequadas para a melhoria do país e do mundo."

Quando Roosevelt pediu conselho ao general John J. Pershing , que comandara as Forças Expedicionárias Americanas na 1.ª Guerra, sobre a promoção de Marshall, Clark observou: "Ele está essencialmente à procura de uma pessoa específica, para, quando for necessário, contactá-la." Um bilhete enviado a Harry Hopkins sobre os programas de obras públicas mostra que tudo o que ele fazia estava inter-relacionado: o uso de fardos de algodão para fazer roupa de trabalho, para sustentar os preços dos produtos agrícolas, o que por sua vez colocaria dinheiro no bolso das pessoas e melhoraria a economia. "É o rascunho da história", segundo Clark.

Depois de cinco anos de negociações e uma legislação especial, todos os 5 mil documentos de Tully foram doados à Biblioteca Roosevelt pelo Grupo Sun-Times Media.

A carta de Kennedy foi o presságio de seu desprezo pela guerra, e pelo futuro da democracia - comentários que, juntamente com seus esforços para conseguir uma reunião de conciliação com Hitler, o obrigaram a renunciar ao cargo de embaixador em 1940. "Os britânicos estão partindo para esta guerra que odeiam, mas com a determinação de combater até pôr fim a ela", escreveu Kennedy. "Ainda não sei se poderão conseguir aquilo pelo qual estão combatendo."

Em uma carta, Mussolini manifestou em 1933 sua admiração por Roosevelt e a esperança de que pudessem se reunir para "discutir os importantes problemas do mundo em que EUA e Itália estão mutuamente interessados". E referiu-se às relações "cordiais e amistosas" entre os dois países, manifestando a confiança de que se tornarão mais fortes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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