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Gilles Lapouge
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A História sob ataque

No fim da semana, os combatentes do grupo extremista Estado Islâmico estavam nas imediações da cidade histórica de Palmyra, no centro da Síria, a 210 quilômetros da capital, Damasco. Palmyra é uma cidade que evoca muitas lembranças.

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2015 | 03h00

Lembranças de escola, lembranças vagas e quase apagadas pelos ventos do deserto. Imaginamos, na luz ofuscante, a antiga cidade de areia onde as caravanas buscavam se abrigar. Depois, chegaram os soldados gregos e, em seguida, os romanos, que fizeram dessa intersecção de rotas uma das mais belas cidades do antigo Oriente Médio. 

Essa cidade, a meio caminho da História e do Mito, sobre a qual reina o fantasma de Zenóbia (século 3.º), a fabulosa imperatriz das areias, está agora ameaçada de cair nas mãos dos assassinos do Estado Islâmico se as tropas sírias enviadas para salvá-la não chegarem a tempo. 

Devemos temer tudo. O Estado Islâmico já nos deixou claro que detesta as obras de arte, os vestígios de antigas civilizações, as estátuas e os livros, todo esse bricabraque de velharias. E as destrói. 

É por isso que naquela região do mundo, onde se sucederam as mais belas civilizações antigas – Suméria e Babilônia, Grécia e Roma, cristianismo e islamismo –, os guerreiros dementes do Estado Islâmico se regalam. 

Há alguns meses, o grupo extremista que dominou partes da Síria e do Iraque destroçou o museu iraquiano de Mossul a golpes de marretas e britadeiras, em ação que foi filmada e divulgada pelos canais de comunicação dos próprios terroristas. 

Pouco tempo depois, próximo dali, o sítio excepcional de Nimrud, de cultura assíria que data do século 13 antes de Cristo, foi também atacado. Amanhã talvez seja a vez dessa joia que é Palmyra.

Por que tal furor? Os jihadistas não querem que a terra conserve os traços de outras civilizações que não a islâmica. Onde o Islã sunita não deixou marcas, a terra deve retornar ao vazio, à morte. Monumentos de outros ramos do islamismo, particularmente os xiitas, estão sujeitos à mesma destruição que os vestígios cristãos ou babilônios.

Lembremos que em 2012 os jihadistas demoliram com escavadeiras o mausoléu de um xeque líbio sufi na Líbia. No ano seguinte, saquearam a cidade de Timbuctu, no Mali, capital cultural de todo o Saara. Além disso, recentemente, em março, um comando afirmando ser do EI penetrou no museu do Bardo, em Túnis, destroçou suas coleções e matou 21 pessoas durante o ataque.

Desprezo e lucro. Os jihadistas não se contentam em destruir os tesouros culturais. O Estado Islâmico sabe selecionar as maravilhas que caem em suas mãos: as peças mais conhecidas e as mais pesadas, que não poderão transportar, nem revender, são destruídas. Mas não suprimem as obras da antiguidade que podem vender nos mercados paralelos de arte.

Uma parte dos objetos é reservada e passa, de mão em mão, por três, quatro ou cinco pessoas, que saem em busca de um primeiro comprador. Finalmente, a peça chega a um intermediário que se encarregará de retirá-la da região – geralmente através do território turco.

Ali, um novo personagem aparece e transporta o objeto para os grandes mercados de arte: Paris, Londres, Berlim e até Moscou.

Em nenhum caso a peça passa por casas oficiais de leilão. Ela é revendida a colecionadores clandestinos. E as coisas param por aí. Depois de uma dezena de anos, o tesouro chegará aos circuitos comerciais de obras de arte. 

Calcula-se que esse comércio, juntamente com o do petróleo, tornou-se a principal fonte de financiamento das atividades dos extremistas sunitas do Estado Islâmico. 

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris/Tradução de Terezinha Martino

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