A hora da África

A impressionante ascensão econômica do continente

O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h04

Os adolescentes começaram a chegar ao Arcades, shopping center ao ar livre em Lusaka, em Zâmbia, mal o sol começou a se pôr. Eles ocuparam primeiro o estacionamento, depois as calçadas. Meia hora depois, os grupos bem vestidos ocupavam quase todo o espaço para pedestres disponível.

Joshua Banda, um jovem de 15 anos usando um tênis All Star Converse verde com cordões combinando, estava sentado com dois amigos na beirada de uma fonte, perscrutando a multidão de garotas. Ele se proclamou fã de Lil Wayne e depois me contou que deseja ser advogado.

Os pais de Joshua mudaram-se para um barraco em Lusaka quando ele era pequeno. Seu pai é vigia e sua mãe faz faxina em escritórios. Vendo a educação de Joshua como a melhor garantia de seu próprio futuro, eles pouparam seus minguados proventos para pagar a escola para ele e para um irmão mais velho. Joshua aprendeu um pouco sobre sacrifício, embora de um tipo diferente. Como não pode pagar o preço de um telefone celular - e como, em Lusaka, os adolescentes não são ninguém sem telefones celulares -, ele divide um com seu melhor amigo.

A nova cultura de shopping na capital de Zâmbia, que observei expandir-se quase exponencialmente em visitas ao longo dos últimos três anos, está em franco crescimento por toda a África. Impelindo essa cultura estão jovens como Joshua e seus amigos, uma geração que está crescendo como nenhuma outra que a precedeu: uma nova corte de jovens com renda disponível, embora modesta, um conhecimento agudo e atualizado das tendências juvenis e do consumismo reinante no mundo, e, mais importante, a expectativa de que a vida continuará ficando melhor.

A África, com uma população que deve dobrar em meio século, passou a ser reconhecida como o continente que mais rapidamente cresce no mundo. A história menos contada, porém, é a ascensão econômica da África. Na última década, sem muito alarde, as taxas de crescimento do continente se aproximaram das taxas da Ásia, e, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), nos próximos cinco anos, a África terá, em média, a economia de crescimento mais acelerado entre todos os continentes.

Hoje, sete das dez economias que mais crescem do mundo são africanas. O continente é sabidamente rico em recursos naturais, o que certamente ajudou, mas alguns estudos sugerem que os principais fatores de avanço são bem menos costumeiros para a África e bem mais animadores para o seu futuro: comércio atacadista e varejista, transporte, telecomunicações e produção industrial.

Um relatório recente do African Development Bank projetou que, até 2030, boa parte da África terá uma maioria de classe média e média baixa, que os gastos de consumo explodirão de US$ 680 bilhões, em 2008, para US$ 2,2 trilhões. Segundo a McKinsey, a África já tem mais consumidores de classe média que a Índia, cuja população é maior.

Boa parte da mídia americana não conseguiu captar essas tendências, aferrando-se de tal forma a suas antigas narrativas tradicionais da violência e do sofrimento africanos que chegou a excluir a maioria das outras notícias. O meio empresarial americano, porém, está se mostrando cada vez mais atento à África como uma grande nova história de crescimento. Companhias grandes, do varejo à tecnologia, estão se aproximando da África como uma nova e promissora fronteira de crescimento. Muitas já estão investindo pesado na região.

Investimento. Em março, um tribunal sul-africano aprovou a compra pelo Walmart, por US$ 2,4 bilhões, do controle acionário da Massmar, uma das maiores cadeias de varejo do país. A IBM abriu escritórios em mais de 20 países africanos. Em 2009, a AES, um das maiores fornecedoras privadas de eletricidade dos EUA, tornou-se proprietária majoritária e operadora da rede elétrica nacional de Camarões.

Por todo o continente, o Google está investindo em infraestrutura de internet e lançando páginas de busca em um número crescente de idiomas africanos. O relatório do African Development Bank define classe média baixa como aquela cujos membros têm gastos diários per capita de US$ 2 a US$ 20, em dólares de 2005, um patamar tão baixo que os céticos temem que isso possa ter criado uma exaltação possivelmente prematura sobre a melhoria da sorte do continente. No entanto, os autores do relatório assinalam que a definição inclui outras variáveis, como educação, aspirações e estilo de vida.

Isaac Nilongo, um jovem de 17 anos trajando uma camisa quadriculada com destaques amarelos, veio ao Arcades com seus amigos para assistir a um filme no Multiplex de cinco telas que, nesse fim de semana, estava exibindo Transformers e Capitão América.

O aluno do ensino secundário pretende se tornar piloto. Ele gosta de frequentar o shopping porque "é legal quando você sai e encontra uma porção de pessoas como você". Quando lhe questionei sobre o futuro de Zâmbia, ele parou de apreciar o movimentado cenário do shopping. "Será decididamente diferente", disse. "Haverá muito mais lojas e muito mais produtos. Parecido com isto, mas muito melhor." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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