AFP PHOTO / FEDERICO PARRA
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Artigo: A hora da América

Líder opositor e ex-presidente da Assembleia Nacional fala sobre o regime Maduro: reitero aos presidentes de toda a América que a Venezuela é um Estado falido e um grande perigo para a região

Julio Borges*, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2019 | 22h10

É compreensível que algumas pessoas pensem hoje que a ditadura de Nicolás Maduro prevaleceu sobre os venezuelanos democratas e esteja entronizado no poder indefinidamente. Mas não, a verdade é que Maduro está irremediavelmente perdido. A Venezuela, país que se tornou exemplo de democracia e desenvolvimento, hoje é um Estado falido e, portanto, o maior perigo para toda a região.

Essa situação força toda a América Latina a agir com determinação e urgência, como fez o Grupo de Lima, no dia 4. Quando dizemos que Maduro está irremediavelmente derrotado, vem à mente a queda da França, em 1940, quando Charles de Gaulle, falando a seus compatriotas desanimados, disse que a Alemanha tinha perdido guerra. Para muitos, isso soava como retórica perdida, mas De Gaulle assinalou que as forças internacionais, que Hitler desafiava, eram muitas e logo agiriam. No longo prazo, Hitler havia assegurado um resultado que era inevitavelmente adverso ao seu delírio.

Guardando as devidas proporções, julgamos que estamos em situação parecida com Maduro: tudo indica que ele será expulso do poder, porque, ainda que ele busque se perpetuar à custa da vida de venezuelanos, o ditador enfrenta hoje um cenário interno e externo que precipitará inexoravelmente sua saída.

Isso é inevitável porque há circunstâncias que não dependem da vontade de Maduro. Quais são esses fatores? Primeiro, Maduro fechou completamente todas as saídas eleitorais e democráticas para a crise, o que faz dele um ditador em contagem regressiva. No fim, para azar dele, o povo venezuelano continuará resistindo.

O petróleo deixou de ser relevante na equação de poder do chavismo como consequência direta da destruição de nossa principal indústria. Com a estatal PDVSA destruída pela corrupção colossal do regime e a produção em queda livre, seus principais ativos estão seriamente comprometidos. A devastação foi tão abrupta que a produção de petróleo mal chega aos milhões de barris por dia e o PIB caiu 56% desde que Maduro chegou ao poder, há 5 anos, resultando na maior recessão da América Latina nos últimos 50 anos. Além disso, a hiperinflação atingiu 2.000.000% e a dívida do país é 1,7 vezes superior ao seu PIB.

Finalmente, não podemos deixar de mencionar o extermínio do ecossistema que ocorre no Arco Mineiro, onde 91% do ouro é extraído ilegalmente e há 20 mil mineiros que trabalham sem regulamentação.  

A perseguição não afeta mais apenas os líderes da oposição, que continuam a ser perseguidos, inabilitados politicamente, sequestrados, como o deputado Juan Requesens, assassinados, como Fernando Albán, líder do Primeiro Justiça, ou condenados ao exílio. Maduro também encheu as prisões com centenas de altos e médios oficiais das Forças Armadas, uma vez que há uma clara ruptura entre seu regime e os quartéis, em nome da destruição da democracia e do colapso da ordem constitucional.

Como fator adicional, destacamos a crise humanitária que provocou a imigração de cerca de 5 milhões de venezuelanos para todas as partes do mundo. Especialistas estimam que essa onda migratória poderá atingir 9 milhões de pessoas até 2019, se não conseguirmos articular uma mudança política que permita que a estabilidade econômica e democrática retorne ao país.

Além de tudo isso, a ditadura enfrenta uma crise de legitimidade, a comunidade internacional ignora as eleições presidenciais ilegítimas e fraudulentas para a Assembleia Constituinte, feitas sem a participação da oposição. Esta posição foi consolidada depois que nos recusamos, na República Dominicana, a assinar um acordo contrário aos interesses dos venezuelanos. É por isso que hoje Maduro e a liderança que o acompanha não são reconhecidos, são acusados e enfrentam sanções dos Estados Unidos e do restante das democracias do mundo. 

Por tudo isso, gostaríamos de reiterar aos presidentes de toda a América que a Venezuela é um Estado falido e um grande perigo para a região. Em segundo lugar, nós, venezuelanos, não podemos derrubar sozinhos, com nossa força, uma ditadura mantida por Cuba e pela Rússia.

Em terceiro lugar, é necessário articular imediatamente ações que criem maior pressão: sanções pessoais, investigações de corrupção, lavagem de capitais, tráfico de drogas, contrabando, tráfico de armas, desestabilização democrática e, especialmente, ajudar as Forças Armadas na Venezuela a superar a repressão e a chantagem e ser um fator decisivo para restaurar a Constituição e a democracia.

As ações para reconstruir nosso sistema democrático e nossas liberdades devem ser inequivocamente lideradas pela América Latina e estamos no momento certo para materializá-las. Nas palavras do ex-presidente chileno Ricardo Lagos, a morte da democracia na Venezuela seria o fracasso de todo o sistema interamericano.

Há alguns meses, o historiador mexicano Enrique Krauze disse que "um partido pode ser direita ou de esquerda, mas a melhor maneira de saber se ele defende a democracia é comparar sua posição sobre a Venezuela".

Por isso, reiteramos nosso apelo ao presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, e ao chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, para que não sejam indiferentes ou ingênuos com a Venezuela e, ao contrário, sejam fatores que contribuam para uma transição democrática em nosso país. A arrogância desumana da ditadura liderada por Maduro desafia os chefes de Estado da região, que têm uma enorme responsabilidade para com o sistema interamericano.

Um homem pode muito bem morrer por seu país, mas não é justo que um país inteiro morra para satisfazer o desejo de poder de um único homem.

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É líder opositor e ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela

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