A hora de acertar contas com Taylor

Condenado por crimes em Serra Leoa, ex-ditador comandou onda de atrocidades no país que governou, a Libéria

O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h06

Quando soube na quinta-feira que Charles Taylor, ex-presidente da Libéria, tinha sido condenado por crimes de guerra em Serra Leoa, telefonei para uma das pessoas cujas vidas foram destroçadas pelos soldados dele: minha irmã Eunice, que mora na Libéria, meu país natal.

Antes de Taylor desencadear um verdadeiro tsunami de estupros, assassinatos, tortura e desmembramento que acabaria engolindo Serra Leoa, matando mais de 50 mil pessoas e obrigando milhares de outras a deixar seus lares, houve a Libéria.

Foi na Libéria que, em junho de 1990, os rebeldes de Taylor chegaram à plantation de borracha Firestone (o lugar ainda era chamado de "plantation"), nos arredores de Monróvia, onde Eunice trabalhava. Os combatentes queriam vingar a morte dos companheiros em chacinas que custariam a vida de centenas de milhares de civis dos grupos étnicos rivais da Libéria. Eunice, que então tinha 27 anos, correu para fora a tempo de ver cerca de 20 homens agarrando um colega dela, Harris Brown, e arrastando-o para fora.

Por quê? Ele pertencia à etnia krahn, mesmo grupo do odiado presidente do país na época, o antecessor de Taylor.

Com a guerra civil em curso e os pistoleiros de Taylor vagando pelo país usando vestidos de casamento, perucas loiras e máscaras de Halloween - que, segundo alguns deles, os tornava à prova de balas -, muitos liberianos não deixavam que os filhos se afastassem muito. Brown tinha levado o filho consigo ao trabalho naquele dia e, por isso, o menino pôde testemunhar o que se seguiu.

Primeiro, os soldados obrigaram Brown a ficar apenas de roupa de baixo, fazendo-o sentar no chão. Atiraram nele pelas costas e depois o esfaquearam na barriga. Então, usaram a faca para abrir nele um buraco até o peito. E, depois de terminarem, o homem que empunhava a faca que matou Brown caminhou até o filho dele, deu-lhe um tapinha nas costas e disse: "Não chore". Eunice assistiu a tudo e então fugiu para o norte do país, juntando-se às legiões de mulheres africanas que fazem o que podem quando seu mundo desaba: cozinhar pão de mandioca para vender na beira da estrada. E todos os dias, ao moer a mandioca para preparar a farinha usada no pão, ela pensava no filho, Ishmael.

Ela tinha tomado medidas para garantir que o destino do filho de Brown, o mesmo destino de todos os filhos e filhas que foram sequestrados pelos soldados de Taylor e obrigados a se tornar crianças-soldado, não fosse o de seu Ishmael. Ela o tinha mandado para longe, aos 5 anos. Ela o mandou para Gâmbia, para morar com o pai e a família dele.

Com a rápida deterioração da infraestrutura da Libéria, a economia em frangalhos, o correio inexistente e as linhas telefônicas prestes a ser destruídas, a distância condenaria o relacionamento entre mãe e filho. Mas Eunice, como tantas mulheres africanas da época, optou por salvar a vida do filho. Em função de Taylor, ela só o voltaria a ver 21 anos mais tarde.

Foi na Libéria que as forças de Taylor sequestraram outra de minhas irmãs, Janice, juntamente com o marido, Yao, e o filho deles, Logosou, de apenas 1 ano - no subúrbio de Monróvia, onde eles moravam com alguns órfãos e refugiados. Enquanto os rebeldes de Taylor disparavam granadas propelidas por foguetes, Janice agachou-se ao lado de uma parede do banheiro protegendo seu bebê. Logosou estava tão acostumado com os combates na Libéria que criara o hábito de levantar as mãos sempre que via soldados, dizendo: "Viu, mamãe? Mãos ao alto".

Mas, naquele dia, Janice não deixou ele levantar as mãos; ela rastejou por sobre ele para protegê-lo dos estilhaços. Dez soldados de Taylor entraram na casa, atirando para todos os lados. Eles mataram um órfão de 9 anos que ficara ferido durante o sítio, mataram um homem que entrou por acaso no caminho do grupo e fizeram todos os outros reféns, obrigando-os a marchar 15 quilômetros até o alojamento militar. Enquanto caminhava sob o sol escaldante, minha irmã abraçava o filho com força, recitando a ave-maria no pé do seu ouvido.

Uma rebelde aproximou-se de Janice e admirou Logosou. "Que bebê mais bonito", provocou ela. "Já matei dois parecidos hoje." No alojamento, os rebeldes trancaram Janice, Yao e Logosou numa cela com outras nove pessoas. Eles levaram três homens mais velhos que estavam hospedados na casa de Janice e os fuzilaram do lado de fora da cela. No dia seguinte, inexplicavelmente, os combatentes libertaram Janice e sua família, que então tentaram chegar - a pé, de ônibus, pedindo carona - à fronteira com a Costa do Marfim. A viagem durou 15 dias.

Foi na Libéria que Taylor se candidatou à presidência com o slogan "Ele matou meu pai, matou minha mãe, mas votarei nele mesmo assim", numa reveladora admissão do estrago psicológico que uma guerra civil sem sentido pode infligir a um país. É na Libéria que, quase uma década após a expulsão de Taylor, homens e mulheres tentam hoje transformar ex-soldados crianças em pessoas funcionais.

São extremamente complexos os motivos pelos quais Taylor foi julgado pelos crimes cometidos em Serra Leoa, e não pelas atrocidades na Libéria - e muitos deles envolvem o esforço para manter a paz duramente conquistada que existe hoje entre as facções liberianas. Sei disso. Espero apenas que, quando os livros de história contarem o caso do primeiro chefe de Estado a ser condenado por um tribunal internacional desde Nuremberg, eles se lembrem da Libéria.

Telefonei para dois parentes meus na manhã de quinta-feira. Meu sobrinho Logosou, que hoje cursa arquitetura na Universidade Howard, parecia abalado. "Ele foi um misterioso bicho-papão durante toda a minha vida", disse ele. "Ao menos, será castigado por parte do que fez."

Então telefonei para Eunice. A diferença de horário me dizia que ela deveria estar voltando para casa depois do trabalho na Firestone. "Como está Ishmael?", perguntei. Em 2010, ela recuperou o contato com o filho, que hoje mora em Londres.

O relacionamento entre eles é difícil, pontuado por telefonemas entrecortados e visitas tão esmagadas pelo peso da distância e da emoção que são difíceis de suportar. Mas, ao menos, hoje os dois se relacionam. "Como posso saber?", retrucou ela. "Você sabe que ele não me dá detalhes de nada. Pergunto a ele: 'como estão as coisas?'. E ele responde 'tudo bem'. Não consigo saber mais do que isso." Ela soava como uma mãe exasperada, que podia se dar o luxo de se irritar. Pela primeira vez, não senti nenhum pesar na voz dela ao falar a respeito de Ishmael. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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