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Adriana Carranca
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A humanidade fracassou?

Eu conversava com sobreviventes do Holocausto esta semana. “Nós temos repetido desde então: nunca mais! Nunca mais! E veja o que está acontecendo no mundo hoje”, comentou uma delas, sobre a atual crise dos refugiados, o maior êxodo desde a 2.ª Guerra. “Em minha experiência, não gosto de generalizar, porque presenciei quando os nazistas vieram e...”, disse um senhor polonês que, aos 91 anos, ainda engasga e precisa controlar o choro para falar do passado. “Minha experiência diz que o homem, em si, não é bom. Infelizmente. Porque, em todas as situações, ele pensa primeiro naquilo que é vantajoso para ele e não se importa se o mesmo é bom para os outros.”

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2016 | 05h00

Hittler era um louco sanguinário, mas não estava sozinho. Não foi de repente nem sem apoio popular que chegou ao poder, tampouco conseguiu manter os campos de concentração e extermínio sem a conivência, por ação ou omissão, de milhares de outros do partido nazista e de fora dele.

No rastro dos horrores da 2.ª Guerra, criamos os mecanismos internacionais – o primeiro deles, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 – para evitar que esses horrores se repetissem. Em outras palavras, para nos proteger de nós mesmos.

Décadas depois, a Europa se vê mais uma vez diante de milhões de desesperados em busca de asilo e, pressionada pelos tratados internacionais para aceitá-los, passa a buscar medidas para impedir que sequer cheguem às suas fronteiras. O acordo entre União Europeia e Turquia, assinado em março, é o mais recente exemplo de medidas adotadas para afugentar migrantes. Obriga, à revelia das leis internacionais, os que chegam à Grécia a retornar à Turquia, do autocrata Recep Erdogan.

A resposta caótica aos refugiados, e outras crises, tem fomentado o descrédito do sistema internacional e permitido a ascensão de populistas da extrema direita. Norbert Hofer, o canditado do Partido da Liberdade da Áustria que anda armado para “proteger-se de refugiados” e na campanha alertava contra “invasão muçulmana”, perdeu as eleições presidenciais no domingo, mas a xenofobia, a islamofobia e o antissemitismo estão em ascensão na Europa. Populistas estão usando o medo para revitalizar o nacionalismo radical.

Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nomeou esta semana para ministro da Defesa o ultranacionalista Avigdor Lieberman, jogando uma pá de cal na solução dos dois estados. Nos EUA, Donald Trump assegurou candidatura à Casa Branca pelo Partido Republicano – ele, que prometeu banir muçulmanos e chamou os imigrantes mexicanos de criminosos.

No Brasil, o governo interino reduziu o status do Ministério dos Direitos Humanos a secretaria, o que até a nova titular da pasta, Flavia Piovesan, classificou como “retrocesso”. “Uma secretaria não dá mais conta da complexidade e da sofisticação que a defesa dos direitos humano assumiu no século 21. Mas esse ministério de homens brancos não entende nada sobre o mundo. Até (o ex-presidente José) Sarney, que fez parte dos governos autoritários, tinha a visão de que o Brasil precisava entrar nessa evolução progressiva do aprofundamento dos tratados internacionais”, diz Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro da secretaria de Direitos Humanos do governo FHC. “De certa forma, esse retrocesso corresponde ao que acontece com Trump nos EUA e os governos autoritários da Europa. Mas é um desastre para uma potência emergente, especialmente porque o Brasil é respeitado como interlocutor em todo o mundo.”

A Anistia Internacional, em seu relatório, 2015-2016 alertou para um “ataque a granel” aos direitos humanos por governos que buscam interesses nacionais de curto prazo e para uma tendência em todo o mundo a atacar instituições para proteção desses direitos.

Em Hiroshima ontem, para lembrar outra tragédia da 2.ª Guerra, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o mundo precisa de uma “revolução moral”. Ele não pode apagar os erros do passado, mas está correto sobre o futuro.

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