Laszlo Balogh/Reuters
Laszlo Balogh/Reuters

A Hungria e o fascismo

Governo vem manifestando prazer em violar todos os princípios da União Europeia

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2012 | 03h05

Como se não bastassem os muitos problemas enfrentados por causa do desastre da zona do euro, eis que a União Europeia agora está com uma nova batata quente nas mãos. E grande. Um país inteiro. Trata-se da Hungria, que faz parte do bloco europeu e cujo primeiro-ministro, Viktor Orban, tem constantemente provocado Bruxelas.

Primeiro em seus discursos e, há alguns dias, por meio de novas leis, o governo de Orban, que representa a direita dura e autoritária da Hungria, vem manifestando um prazer doentio em violar espetacularmente todos os princípios da União Europeia, os quais todo o país que adere ao bloco deveria respeitar.

Há alguns dias, por exemplo, Orban organizou um controle implacável da mídia, desrespeitando a liberdade de imprensa, um dos dogmas sagrados da União Europeia. E, no primeiro dia do ano, entrou em vigor uma Constituição húngara que acaba com a independência do Judiciário, da Suprema Corte e do Banco Central.

Todos os poderes ficam nas mãos do partido do premiê, o Fidesz. Além disso, dispositivos distorcidos e opacos tornam quase impossível a destituição do primeiro-ministro. Em Bruxelas, reina a fúria. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, se disse "inquieta" com a democracia húngara.

A todos esses alertas, Orban responde com escárnio. Podemos perguntar como essa política antieuropeia e projetada por uma ala fascista é tolerada pela sociedade húngara. Duas respostas: a primeira é que Orban foi um "herói" da libertação do país do jugo da União Soviética. Ainda jovem e eloquente, aos 26 anos, ele teve a audácia de reivindicar a realização de eleições livres na Hungria. Desde então, mostrou-se uma figura talentosa. Seu partido é poderoso. Além do que, Orban é vice-presidente do PPE, o "clube" dos partidos conservadores europeus, que estão majoritariamente no poder na União Europeia.

A segunda resposta é mais inquietante. A Hungria jamais demonstrou uma grande paixão pela democracia. Ela apoiou os governos mais sórdidos da recente história europeia, o regime de Adolf Hitler, por exemplo. Essa tendência autoritária não deve ser esquecida. Prova disso é que, se o partido conservador de Orban detém dois terços das cadeiras do Parlamento, um outro, ainda mais extremista, o Jobbik, obteve 15% dos votos.

Esse partido, fascista para não dizer coisa pior, criou uma milícia paramilitar, a Guarda Húngara, que usa um uniforme inspirado nos fascistas de 1940 e tem multiplicado suas bravatas. Esses "iluminados" do Jobbik seriam responsáveis pelo assassinatos de ciganos. É verdade que Orban condenou essas mortes, mas a polícia acobertou a infâmia. Mesmo que o premiê tenha denunciado os assassinatos, ele humilha sistematicamente os ciganos, com o assentimento entusiasta do povo, tendo chegado a impor o trabalho obrigatório em canteiros de obras públicas, para eles tenham direito a benefícios sociais.

O governo, porém, tem um ponto frágil: a economia húngara está deteriorada. Acaba de ser inserida na categoria de "especulativa" pelas agências de classificação Moody's e Standard & Poor's. A Hungria tem a necessidade urgente de um crédito de 15 a 20 bilhões, que solicitou ao Banco Mundial e ao FMI.

Segundo notícias recentes, as duas instituições internacionais teriam interrompido os contatos com Budapeste em protesto contra a decisão de colocar o Banco Central húngaro sob tutela do Estado. Por quanto tempo? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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