AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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A ideia americana de Obama

‘Em nenhum outro país minha história seria possível’, lembrou o hoje presidente na convenção de 2004

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2016 | 05h00

Há uma frase de uma conversa, há 20 anos, entre Barack Obama e a fotógrafa Mariana Cook que nos dá um importante insight de quem é o presidente: “Toda a minha vida tenho construído uma família, por meio de histórias ou lembranças, amigos ou ideias”.

E não foi fácil: o pai queniano perdido, o padrasto indonésio Lolo Soetoro, a jornada inusitada por vários nomes e identidades, seu lado paterno negro e materno branco, a juventude na Ásia, a adolescência no Havaí, os anos de estudante na Califórnia e Nova York e a passagem para a vida adulta em Chicago. 

O que Barack Obama acabou “construindo” na sua trajetória para a autoafirmação, a ideia de agregação que se tornou sua referência fundamental, foram os EUA. Como afirmou em seu discurso inaugural na convenção democrata em 2004, “em nenhum outro país minha história seria possível”.

Este foi o momento em que Obama surgiu no cenário nacional. “Não existe um EUA negro e outro branco, um latino e um asiático, o que existe são os EUA.” Ainda sinto a forte emoção causada por suas palavras em Boston. 

Nos 12 anos que se passaram deste então, sua mensagem não mudou e ficou evidente na Filadélfia na semana passada quando ele endossou a candidatura de Hillary Clinton. Obama falou dos valores americanos que levaram seus avós no Kansas e a família de sua mulher, Michelle, a considerar os filhos de imigrantes “simples americanos como eles próprios, mesmo usando uma roupa de caubói, um quipá, um boné de beisebol ou um hijab”. 

Obama estava inspiradíssimo. Como descobriu os EUA, reconstituiu o país depois dos anos passados no exterior, viu-o como qualquer recém-chegado o veria, aprendeu por meio da experiência o espaço que ele oferecia para a reinvenção pessoal, ele tem uma paixão intelectual singular pela ideia americana: uma nação de imigrantes iguais perante a lei e devotados ao conceito de que entre seus direitos inalienáveis estão “a vida, liberdade e a busca da felicidade”.

Obama censurou Donald Trump, o potencial salvador. “Não esperamos ser governados. Não, os americanos querem se governar.” E lembrou os americanos, num momento crucial, das primeiras palavras da Constituição: “Nós, o Povo”. De todas as cores, credos, sexualidades, raças, etnias o povo se compõe: e para Obama esta é a força dos EUA; que lhe deu a sua força. Seja de onde você vier, contribuirá para o renascimento americano. Não existe nenhuma América real para recuperar, como insiste Trump, porque a realidade de muitas cores deste país é um vir a ser incessante. É um mosaico em que Barry Soetoro, seu nome de infância na Indonésia, tornou-se Barry Obama – é o país onde, como afirmou em 2004, “um garoto magro com um nome engraçado” encontrou seu lugar. 

Contudo este país, cujas divisões Obama, o híbrido, superou há 12 anos, talvez esteja mais dividido do que nunca à medida que sua presidência chega ao fim. Mais de 2,5 milhões de membros das Forças Armadas americanas foram enviados ao Afeganistão e Iraque nos últimos 15 anos. Para um grande número das 2,5 milhões de famílias, Obama não reverenciou o sacrifício que fizeram porque, em seu prudente realismo, não existe muito espaço para o discurso americano heroico.

Os EUA foram governados nos últimos oito anos por um homem feliz. E fomos lembrados deste legado há duas semanas na convenção democrata. E somos lembrados diariamente da ameaça de Trump – cuja trajetória americana o levou à difamação de Khizr e Ghazala Khan, os pais muçulmanos de um soldado americano morto, e a esta estéril convicção: ódio produz manchete. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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