A 'ignorância chique' de Palin

Ao contrário de Marilyn, que associou o glamour à inteligência, ex-governadora abusa da falta de cultura

Maureen Dowd / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

A estratégia de sedução de Casanova consistia em dizer a uma linda mulher que ela era inteligente e dizer a uma mulher inteligente que ela era linda. A falsa escolha entre intelectualismo e sexualidade nas mulheres persistiu ao longo das eras. Sua vítima mais notável foi Marilyn Monroe.

Ela foi inteligente o bastante para tornar-se a mais famosa das loiras burras. Fotógrafos adoravam fazê-la posar de short, roupão ou maiô com um olhar convidativo e um livro pesado. A foto de uma coelhinha de sobrancelha arqueada, uma variação da bibliotecária sexy. Homens que se sentiam nervosos diante de sua intensidade erótica podiam se sentir superiores fazendo graça dela intelectualmente.

Marilyn não entendia completamente a piada. Marcada na infância pela esquizofrenia da mãe e pelas constantes mudanças de endereço, recebia com alegria os clássicos que eram postos em suas mãos. Além disso, leu alguns deles, de Proust a Dostoievski, passando por Freud e pelos seis volumes da biografia de Lincoln escrita por Carl Sandburg (um presente que ela ganhou do marido, Arthur Miller), reunindo uma biblioteca de 400 títulos. Miller certa vez a descreveu como "uma poetisa numa esquina tentando recitar para um público que puxa as roupas dela".

Fragmentos, um novo livro contendo poemas, cartas e pensamentos de Marilyn, é comovente. A mulher mais desejada do mundo era solitária e melancólica. Considerando o próprio casamento uma união feliz, ela ficou arrasada ao encontrar um diário no qual Miller tinha escrito que ela o desapontava e o constrangia diante de seus pares intelectuais.

Diferentemente de Paris Hilton e sua raça, a loira burra do cinema dos anos 50 tinha compreendido muito bem ao menos uma coisa: ser inteligente era "descolado".

Mas agora uma outra beleza famosa de pele reluzente e corrente política poderosa, Sarah Palin, está lançando a moda da ignorância.

Você tem dificuldade para citar casos que tramitaram na Suprema Corte, jornais que lê com regularidade e pais fundadores que admira? Tudo bem. Apoia para a vaga de senador pela Pensilvânia um candidato que está concorrendo na Virgínia Ocidental? Paciência. Ao menos você não faz parte daquela elite "insensível" que estudou nas melhores universidades, como o presidente Barack Obama, incapaz de demonstrar emoções.

Como publicou Palin no Twitter em julho a respeito de sua própria linguagem especial: ""Refudiar", "subequivaliação", "manhentizado". O idioma é uma língua viva. Shakespeare também gostava de inventar novas palavras. Isso deve ser celebrado!" Ela diz acreditar no "excepcionalismo" americano. Mas, em se tratando das pessoas que governam o país, o "excepcionalismo" é suspeito; os líderes deveriam ser - como Palin e outros republicanos dizem - exatamente como você.

Nos EUA de Marilyn, havia aspirações. Os estúdios se interessavam por obras da literatura em vez de expressões vazias como "ele não está tão a fim de você" e besteiras monotemáticas como "comer, rezar e amar". Fantasia, de Walt Disney, reuniu personagens do desenho e compositores famosos. Até o Pernalonga conhecia Wagner. Mas, nos EUA de Sarah, nós "refudiamos" tudo isto. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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