A imprensa enganada e a invasão que não ocorreu na Faixa de Gaza

A imprensa enganada e a invasão que não ocorreu na Faixa de Gaza

Várias organizações jornalísticas internacionais alertaram imediatamente os leitores de todo o mundo para o fato de que uma incursão ou invasão terrestre de Gaza estava em andamento, mas Exército alegou mal entendido

David M. Halbfinger/The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 15h00

CIDADE DE GAZA - O exército israelense anunciou abruptamente depois da meia-noite de sexta-feira que sua infantaria tinha começado a “atacar a Faixa de Gaza", divulgando a informação no Twitter, em mensagens de texto a jornalistas e confirmando-a oficialmente por meio do porta-voz do exército em língua inglesa.

Várias organizações jornalísticas internacionais alertaram imediatamente os leitores de todo o mundo para o fato de que uma incursão ou invasão terrestre de Gaza estava em andamento, uma importante escalada nas hostilidades entre israelenses e palestinos.

Em questão de horas, todas essas reportagens foram corrigidas: nenhuma invasão ocorreu. Em vez disso, as forças terrestres abriram fogo contra alvos em Gaza a partir do território israelense, enquanto aeronaves e drones seguiam com o ataque aéreo. Um importante porta-voz militar assumiu a responsabilidade, atribuindo o engano à confusão da guerra.

Mas, na noite de sexta-feira, vários importantes veículos jornalísticos israelenses estavam informando que o anúncio não foi feito por engano, sendo na verdade parte de um elaborado embuste. De acordo com essas reportagens, o objetivo era fazer com que os combatentes do Hamas pensassem que uma invasão tinha começado, respondendo de uma forma que expôs um número muito maior deles ao que foi descrito como mortífero e devastador ataque israelense.

O porta-voz do exército em língua inglesa, tenente-coronel Jonathan Conricus, insistiu que o erro no anúncio foi de sua própria responsabilidade, mas teria sido um erro humano, afirmando aos correspondentes internacionais em uma tensa chamada na manhã de sexta feira que ele interpretou equivocadamente as informações “vindas do campo”, e as teria divulgado sem tê-las confirmado devidamente.

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Mas, enquanto isso, na imprensa hebraica, o exército era elogiado por ter atraído os combatentes do Hamas para uma rede de túneis no norte de Gaza que foi bombardeada incessantemente por cerca de 160 jatos israelenses em ataques aéreos que começaram perto da meia-noite.

“Foi assim que os túneis se tornaram armadilhas mortais para os terroristas em Gaza", foi a manchete da emissora israelense Channel 12 na matéria do correspondente militar, que descreveu como “plano elaborado” a divulgação de informações falsas a jornalistas estrangeiros.

A imprensa israelense citou uma confirmação do exército do país de que o plano teria funcionado. Não foi possível a verificação independente dessa informação.

Mas a possibilidade de o exército ter usado a mídia internacional para aumentar o número de alvos em Gaza trouxe perguntas difíceis para Conricus na chamada com jornalistas. As autoridades israelenses insistiram para que a chamada fosse feita em caráter extraoficial, mas um repórter do Times que não participou da conversa obteve um registro do seu conteúdo com outra organização jornalística.

Representantes do Times, do Washington Post, do Wall Street Journal, da National Public Radio e da Agence France-Presse, que noticiaram equivocadamente a invasão terrestre na madrugada de sexta-feira, pressionaram o porta-voz com perguntas para saber se tinham sido transformados em acessórios do exército, a razão de horas terem se passado antes que a informação fosse desmentida e como seria possível confiar nas afirmações do exército a partir de agora.

Conricus, oficial e porta-voz veterano dono de uma reputação de grande precisão quanto ao que diz saber e não saber, afirmou que não houve “tentativa de enganar alguém ou levar vocês a publicar algo que não seja verdadeiro", acrescentando: “Entendo como as aparências podem indicar o contrário". Ele descreveu a situação como “muito constrangedora".

Mas Conricus, que deve ir para a reserva do exército no fim de junho, também reconheceu que o exército de fato tentou enganar os combatentes em Gaza, por meio da movimentação explícita de grandes números de tanques e outros blindados na direção da fronteira - como se uma invasão estivesse de fato prestes a ocorrer.

Ele disse que o objetivo era induzir os esquadrões anti tanque do Hamas a sair do esconderijo para disparar contra as forças israelenses, facilitando a identificação e destruição de suas posições - e induzir outros combatentes palestinos a acessar a rede subterrânea de túneis, que os generais israelenses acreditavam poder agora destruir com ataques aéreos.

Conricus recusou o pedido de entrevista para esta reportagem.

Frustração na imprensa especializada

Em entrevista, Daniel Estrin, correspondente da NPR em Jerusalém, manifestou sua frustração.

“Se eles nos usaram, o episódio é inaceitável", disse ele. “E, se não usaram, o que de fato ocorreu? E por que a mídia israelense divulgou amplamente que fomos enganados?”

Amos Harel, analista militar do jornal israelense Haaretz, disse que o envolvimento do gabinete em uma jogada para enganar jornalistas seria uma novidade alarmante.

“É uma situação muito perigosa para o exército israelense, atraindo a suspeita da imprensa internacional, especialmente diante da escalada iminente das hostilidades contra o Hamas, quando Israel dependerá muito da mídia internacional para se explicar", disse Harel.

“É arriscado também para os jornalistas", acrescentou ele. “Talvez o exército israelense tenha se esquecido que os jornalistas estão em ambos os lados da cerca, e seria perigoso para eles se fossem suspeitos de serem usados em operações psicológicas dos israelenses.”

Ao longo da semana, o conflito inspirou uma tempestade mais ampla de informações falsas também nas redes sociais. Alegações falsas têm sido amplamente compartilhadas em todo o mundo - às vezes com fotos e vídeos tirados de contexto ou com rumores falsos a respeito da movimentação israelense e de ameaças palestinas.

O anúncio falso da invasão foi feito na sexta-feira às 0h22 em um comunicado em termos vagos em inglês: “IDF air and ground troops are currently attacking in the Gaza Strip” [Forças israelenses aéreas e terrestres estão no momento atacando na Faixa de Gaza].

O uso ambíguo do “in” [“na"] não está presente na versão do comunicado em hebraico, emitida momento antes. Mas, quando repórteres ocidentais procuraram Conricus, ele lhes garantiu que os soldados israelenses estavam dentro de Gaza.

Na chamada de sexta-feira, Conricus chegou a tentar minimizar o estrago a certa altura, dizendo que se tratava de uma discrepância “de poucos metros - não é uma grande diferença".

Mas a discrepância entre as matérias em inglês e em hebraico desencadearam uma corrida pela verdade nas redações israelenses e sucursais estrangeiras na tentativa de esclarecer a situação.

À 1h43, Roy Sharon, correspondente militar da israelense Kann News, ofereceu respostas conclusivas: “Não há invasão terrestre. Repito: não há invasão terrestre na Faixa de Gaza. Não entendo este estranho comunicado".

Àquela altura, de acordo com as reportagens israelenses, a operação militar já tinha sido concluída/ Tradução de Augusto Calil

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