A imprensa russa e a paranoia do Kremlin

Ao ordenar o fechamento da agência de notícias 'RIA Novosti', Vladimir Putin demonstra que sua tolerância diante do dissenso está cada vez menor

SERGE , SCHMEMANN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2013 | 02h02

O fechamento da agência de notícias RIA Novosti, no meio da crise ucraniana, reflete a visão cada vez mais pronunciada de Vladimir Putin de um mundo de soma zero, em que os inimigos, em casa e no exterior, conspiram contra a Rússia. Ao descrever os protestos ucranianos como um "pogrom" e substituir uma respeitada agência noticiosa por uma máquina de propaganda, Putin seguiu a posição mais agressiva de seu retorno à presidência, em 2012 - que os russos chamam de Putin II ou Putin Recente.

Embora fosse controlada pelo governo, a RIA Novosti era conhecida por uma reportagem noticiosa relativamente isenta e uma apresentação equilibrada dos interesses nacionais e políticos da Rússia (sua reportagem sobre a própria dissolução chamou o caso de "uma mudança que parece apontar para um endurecimento do controle do Estado no setor de mídia já pesadamente regulamentado"). Putin ficou irritado com a reportagem da RIA Novosti sobre os protestos em massa após ele ter anunciado que concorreria novamente à presidência em 2012. A cobertura da agência dos protestos ucranianos pode ter precipitado a sua dissolução.

Em geral, a agência refletia a abordagem mais liberal de Dmitri Medvedev, o ex-presidente e atual primeiro-ministro, a quem se credita a tentativa de modernizar a economia da Rússia, combater a corrupção e reformar o sistema de aplicação da lei. Essa abordagem de "policial bonzinho e policial malvado", dos primeiros anos de Putin no poder, acabou. Medvedev ainda é primeiro-ministro, mas com um papel menor.

A principal função da RIA Novosti, a disseminação de informações no exterior, está sendo assumida por uma nova organização chamada Russia Today, cujo diretor, Dmitry Kiselyov, é conhecido por suas transmissões servilmente favoráveis a Putin, sua hostilidade aos EUA e seus pronunciamentos homofóbicos. Num editorial em sua primeira página, o respeitado jornal russo de negócios Vedomosti disse: "O Kremlin reconhece que perdeu a parte educada da sociedade e não tem nem os meios nem a vontade de manter um diálogo sobre valores. Assim, em vez de cultura, começou a impor ideologia e, em vez de informação, propaganda."

O Kremlin, escreveu o Vedomosti, vê interesses ou dinheiro do inimigo por trás de tudo de que não gosta. Aliás, Putin, recentemente, chamou os protestos na Ucrânia de "ações de combatentes bem preparados e treinados".

Entrincheirado nessa mentalidade, Putin, evidentemente, se recusa a admitir que os manifestantes ucranianos são motivados pela intensa frustração com o governo pós-soviético por claques corruptas, interesseiras e arrogantes que ele e o presidente Viktor Yanukovich personificam.

O que enfureceu os ucranianos, quando Yanukovich vacilou em estreitar os laços com a União Europeia, foi a sensação de que suas ambições e esperanças foram completamente desconsideradas. Foi o mesmo senso de humilhação que levou dezenas de milhares de russos às ruas depois que Putin, quase casualmente, declarou que tentaria recuperar a presidência em 2012.

"Muitas pesquisas revelaram que o principal catalisador dos protestos na Rússia foi o senso de insulto a sua dignidade, de serem tratados como lixo", disse Oleg Kharkhordin, reitor da Universidade Europeia, em São Petersburgo. Os números nas ruas de Kiev e o furor com que eles se manifestaram após Yanukovich decidir contra a assinatura de um acordo de associação com a Europa, não podem ser atribuídas a uma conspiração do Ocidente.

Por todos os relatos, os ucranianos compreenderam que a UE não estava oferecendo uma panaceia para seus problemas econômicos e políticos. E esperavam pouco do regime corrupto, ao estilo soviético, de Yanukovich. No entanto, esse só foi tolerado enquanto ele e seus camaradas prometiam uma aproximação do Ocidente.

Yanukovich, Putin e outras sobras pós-soviéticas podem encontrar maneiras de ganhar tempo. Não há sucessores óbvios nos bastidores, nem pessoal nem institucionalmente. A cada crise, porém, fica mais claro o que esses líderes defendem. Fechar a RIA Novosti não alterará a realidade do que a agência reportava. Contribuirá para o ressentimento de pessoas enojadas e cansadas de serem tratadas como tolas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EDITOR DA PÁGINA DE OPINIÃO

DO 'NEW YORK TIMES'

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