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A inabalável popularidade de Putin

País sofre com inflação alta, sanções e preços de petróleo e gás em queda, mas líderrusso ainda é visto como um visionário por seu povo

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2014 | 02h00

Os russos assistem a uma disparada nos preços do pão, da carne e das maçãs. O petróleo e o gás, as duas "tetas" da prosperidade russa, fraquejam. As sanções que o Ocidente adotou para punir os maus modos de Vladimir Putin na Ucrânia e outros lugares exauriram de tal forma o país que o Kremlin se viu obrigado a controlar até o preço da vodca.

Sacudido por todos esses ventos perversos, era de se achar que o comandante da Rússia, impassível, viril, enigmático e brutal Putin, tivesse perdido o amor de seus súditos. Não. Putin goza de uma popularidade que a maioria dos chefes de Estado ocidentais (com exceção da alemã Angela Merkel, talvez) ficaria encantada em ter.

Como explicar isso? Há algumas pistas aqui e ali. Por exemplo, essa curiosa nota do Russki Journal: "Mais de cem personalidades políticas e econômicas russas sofrem sanções individuais. São gente próxima de Putin. Fazer parte 'dos que são punidos pelos EUA' constitui uma verdadeira distinção, um certificado de devoção absoluta a Putin. Algumas pessoas até ficaram decepcionadas por ficarem fora dessa elite."

No povo russo, o que alimenta a popularidade intacta de Putin é o "patriotismo". Pela primeira vez desde o fim da URSS, viu-se assomar o espectro de uma guerra de envergadura. E essa guerra "nacional" fascina os jovens. O Ministério da Defesa anunciou uma forte elevação do número de alistamentos voluntários. A população está engajada na "defesa cívica" como nos "bons velhos tempos". O antiamericanismo está no auge. A TV russa rende homenagem a esses jovens que saem em socorro da pátria.

Putin aproveitou a tensão atual para modificar os mecanismos do governo. Até agora, os recursos do poder eram, ao menos na aparência, os mesmos que no Ocidente, com ministros, deputados etc. Depois de anexar a Crimeia, uma nova instância foi instalada: o Conselho de Segurança.

A propaganda de Moscou respondeu às insinuações do Ocidente com a análise cruel das fraquezas europeias. Dezenas de jornalistas e especialistas russos usaram os microfones para explicar que a Europa está em estado avançado de decadência ou até de decomposição. Ao criar a União Europeia, os 28 países consentiram na perda das próprias soberania, identidade, história, geografia, passado e orgulho.

E tudo isso para quê? Para ficar sob a influência dos EUA e colecionar crises econômicas dramáticas. Tal é o resultado mais chocante, mais injusto e mais paradoxal da situação de forças atual. Aos olhos dos russos, Putin ficou sendo aquele que expôs o declínio europeu. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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