A indiferença do grande líder americano

A incapacidade ou indisposição de Obama de manifestar alguma empatia pode lhe custar a reeleição

, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

Em sua autobiografia, Helen Gahagan Douglas conta sobre o dia em que falou ao presidente Franklin D. Roosevelt a respeito de suas visitas aos acampamentos de trabalhadores migrantes. Ela foi especialmente enfática ao mencionar a situação das crianças, que nem mesmo receberiam presentes de Natal, e então o presidente tentou interrompê-la. "Não conte mais nada, Helen", disse Roosevelt à mulher, que é mais conhecida por ter sido derrotada por Richard Nixon numa disputa suja pelo Senado.

Ela ficou pasma. Roosevelt estava chorando. Será que alguém consegue imaginar Barack Obama fazendo algo parecido? A resposta - minha resposta, ao menos - é não. E isso é mesmo surpreendente, se pensarmos bem no caso. Roosevelt era um aristocrata das margens do Rio Hudson - e não abria mão da capa e nem da cigarreira. Independentemente disso, ele era capaz de se comover com os menos afortunados. Obama, em comparação, foi criado na grande classe média dos Estados Unidos, nem rico, nem pobre. Mas, quando o mercado de ações caiu mais de 500 pontos na semana passada e a imagem da noite foi a do presidente soprando velinhas na sua festa de aniversário, a justaposição - fruto do acaso infeliz, é claro - mostrou-se apropriada. Ele parece não se importar.

Essa qualidade de Obama, essa incapacidade de comunicar aquilo que muitos de nós imaginamos que ele esteja sentindo, custou recentemente as vidas de muitas árvores - páginas e mais páginas de ensaios e editoriais.

Um dos artigos mais interessantes, escrito pelo professor Drew Westen, da Universidade Emory, foi publicado na edição de domingo do New York Times. Nele, o autor citava a frequente incapacidade ou indisposição de Obama de explicar-se ou manifestar alguma empatia.

Tudo isso é verdadeiro. Mas o argumento mais importante apresentado por Westen estava já no título: "O que houve com Obama?". A resposta: nada.

Obama sempre foi o homem que é hoje. Ele é a personificação da dissonância cognitiva - a diferença entre aquilo que nós (especialmente os liberais) esperávamos do primeiro negro americano sério a se candidatar à presidência e o homem que ele de fato é.

Obama não conta com praticamente nenhuma das qualidades retóricas dos antigos políticos negros. Ele preferiria evitar o clichê, mas o fato é que Obama sente pouco da dor dos antecessores. Nesse sentido, ele foi tratado com condescendência pelos liberais que olharam para um homem e viram um negro e foi repudiado por aqueles que olharam para um negro e viram o "outro".

Westen culpa Obama por sua incapacidade de contar uma boa história. Mas isso decorre do fato de o próprio Obama ser a grande história. Pensemos um pouco no relato que ele fez de como teve de lutar para conseguir cobertura médica para sua mãe moribunda, pontuado por inverdades.

A resposta da Casa Branca diante do desmentido foi um acachapante silêncio. A afirmação não foi contestada e o assunto logo morreu. Isso ocorreu porque a grande história de Obama não é aquilo que ele diz - e sim quem ele é. Essa situação não mudou e, assim, as mesmas pessoas que criticariam duramente um republicano por uma distorção comparável dos fatos mantiveram-se em silêncio diante do caso de Obama.

O próprio presidente não se dignou a responder. Ele não precisa fazê-lo.

A dificuldade de Obama em se comunicar e seu desprezo pelo lado pornográfico da política podem lhe custar a reeleição. Na edição atual da New York Review of Books, Andrew Hacker cita as descobertas de Larry Sabato, da Universidade da Virgínia, para destacar que "uma parcela desproporcionalmente grande" da maioria de Obama em 2008 era formada por novos eleitores, "principalmente estudantes e membros das minorias". Se um grande número desses eleitores de Obama não se sentir mais atraído pelo caráter histórico e inovador do candidato e/ou se estiver decepcionado com o desempenho dele, a presença do eleitorado nas urnas será menor e Obama se verá em má situação. A paixão daqueles que o odeiam é assustadora; seus admiradores não podem vacilar.

Salvação. Somente o Partido Republicano poderá salvar o presidente Obama. Seus defeitos políticos não podem ser corrigidos porque ele é quem ele é. O presidente pode contar com o fato de que vai concorrer contra um partido que demonstra ter tanta sensibilidade quanto uma planilha atuarial e pretende cortar programas que os pobres e a classe média adoram.

Independentemente de quem seja o eventual candidato republicano, ele se verá preso nos moldes precoces das primárias e dos caucus, onde o extremismo dita as regras e os moderados são sepultados.

Nem Jon Huntsman nem Mitt Romney demonstraram até o momento a destreza política necessária para triunfar nos desafiadores Estados de Iowa e Carolina do Sul. Obama é a própria alma do bom senso.

Enquanto ele fala, balançamos nossas cabeças, concordando. Acredito que, na maioria dos casos, ele fez a coisa certa. Mas duvido que alguém irá um dia contar da ocasião em que ele chorou no Salão Oval, assim como é difícil lembrar de algum momento mais marcante dos seus eloquentes discursos.

O presidente foi eleito porque era descolado. Ele pode ser derrotado por ser indiferente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA

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