A inflação bolivariana

A Venezuela não está melhor do que estava há 14 anos e os poucos avanços foram garantidos por outros países a um custo muito menor

JORGE, CASTAÑEDA, PROJECT SYNDICATE , É EX-CHANCELER DO MÉXICO, JORGE, CASTAÑEDA, PROJECT SYNDICATE , É EX-CHANCELER DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h00

Análise

Os simpatizantes do presidente venezuelano, Hugo Chávez, morto no dia 5, e até mesmo muitos dos seus críticos realçaram várias vezes a suposta realização de dois objetivos que farão concretizar seu legado. Primeiro, a porcentagem de pessoas que vivem em situação de pobreza caiu abruptamente para cerca de 28%, em 2012, após um pico de 62% registrado em 2003 - embora três anos antes, no início do primeiro mandato de Chávez, o índice correspondente fosse de 46%.

O segundo objetivo alcançado por Chávez teria sido a recuperação, entre a maior parte dos venezuelanos, de um sentido de identidade, orgulho e dignidade que há muito lhes era negado por uma oligarquia de pele clara, corrupta e elitista. No entanto, as duas razões são apenas parcialmente verdadeiras e somente em parte se devem às recorrentes vitórias eleitorais de Chávez - 13 das 14 votações, incluindo referendos.

Quanto ao primeiro objetivo, tanto a revista The Economist quanto o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa estavam certos ao relativizar as conquistas de Chávez. Quase todos os países da América Latina reduziram significativamente a pobreza desde o início do século. As dimensões do progresso dependem de linhas de base e imposição de datas-limite, de anos positivos e negativos, da confiabilidade dos dados oficiais e de vários outros fatores.

As razões desses progressos são bem conhecidas: à exceção de 2001 e de 2009, os outros anos foram de crescimento para os países exportadores de commodities, como Brasil, Argentina, Peru, Chile e, claro, Venezuela, assim como para as economias com base no setor manufatureiro, como é o caso do México. Além disso, durante esses cerca de 15 anos, a maioria dos governos conseguiu administrar suas contas de forma responsável: com déficits orçamentários muito pequenos ou inexistentes, baixos índices de inflação, programas de combate à pobreza bem direcionados e assim por diante.

Esse fato ajudou a reduzir não só a pobreza, mas também as desigualdades que são o tradicional flagelo da América Latina. Segundo a economista Nora Lustig, entre 2000 e 2010, "a desigualdade de renda diminuiu nos 17 países da América Latina onde existem dados comparáveis". A queda foi particularmente acentuada nos três maiores países - Brasil, México e Argentina -, que têm cerca de 75% da população da região.

Uma das diferenças em relação à Venezuela é o fato de Chávez ter despendido mais de US$ 1 trilhão para conseguir uma proeza semelhante num país cuja população é um sexto da brasileira e um quarto da mexicana. Embora a eficácia no longo prazo dos programas de transferência de renda de Brasil e México seja questionável, essas iniciativas de combate à pobreza são mais bem concebidas do que os subsídios de Chávez para tudo, desde avicultura e produção de farinha até habitação e gasolina.

Há ainda a questão da destruição da indústria venezuelana, o aumento assombroso da violência, a explosão da dívida externa e a redução das reservas de moeda estrangeira que acompanharam o socialismo bolivariano do século 21 de Chávez. Nenhum desses problemas afetou os outros países da região - ou pelo menos não na mesma medida. Se Chávez não tivesse jogado com os números, como é a tendência dos demagogos e dos populistas, os resultados seriam mais desanimadores.

Custos. O segundo argumento em defesa do legado de Chávez é um pouco mais sólido, mas não muito. É certo que as imensas riquezas naturais da Venezuela foram exploradas e, muitas vezes, desperdiçadas por elites mais habituadas às avenidas de Miami do que aos bairros pobres de Caracas. No entanto, é igualmente certo que, antes de Chávez, a Venezuela gozou de um período de 40 anos de regime democrático.

A Venezuela tinha uma das mais empenhadas sociedades civis da região, com veículos de comunicação livres. À exceção do "caracaço" - onda de protestos contra o pacote de reformas, em 1989, que deixou 3 mil mortos -, houve apenas pequenas crises de repressão.

De fato, há um sentimento de exclusão, e com razão, por parte de uma extensa camada social da Venezuela, que causou fortes ressentimentos. Chávez explorou - e aumentou - essa divisão. Conforme se pode constatar pela atual campanha para eleger seu sucessor, o país está mais polarizado do que nunca.

É bem possível que as proezas e a popularidade sobrevivam a Chávez. Ao contrário de uma simples troca de elites no poder, o que ocorreu durante seu mandato foi o advento de uma liderança que se identifica com as pessoas do país, falando, louvando e amando como elas. Uma liderança que se identifica com milhões de venezuelanos que eram marginalizados. Nesse caso, o sucessor designado, Nicolás Maduro, terá sua tarefa facilitada com relação ao opositor Henrique Capriles. O chavismo sobreviverá a Chávez.

No entanto, qualquer que seja o resultado, todas as questões relativas ao luto não alterarão uma verdade simples: a Venezuela e seu povo não estão em melhor situação do que estavam 14 anos atrás. E os poucos avanços foram garantidos por outros países a um custo muito menor. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.