A influência da China

Com economia em alta, país busca posição de liderança ocupada atualmente pelos EUA

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2014 | 02h01

Enquanto Moscou continua a enviar forças à Ucrânia, é evidente que a Rússia de Vladimir Putin lança aos EUA e ao Ocidente um desafio frontal. Mas, no futuro, não será o assalto militar de Moscou e sim lances fora do âmbito militar que representarão o maior desafio. A Rússia é uma grande potência em declínio. Sua economia representa 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) global. A da China, com quase 16%, cresce e corresponde a quase quatro vezes à do Japão e cinco vezes à da Alemanha, segundo o Banco Mundial.

Os presidentes americano e chinês, Obama e Xi Jinping, merecem os elogios que vêm recebendo em razão do acordo histórico sobre mudança climática, sugerindo que EUA e China caminham para um novo relacionamento produtivo.

A não ser pelo fato de que, enquanto negociava o acordo, o governo de Xi preparava planos para uma política externa diferente - que pretende substituir o sistema internacional criado pelos EUA depois de 1945 por outro próprio. O tema está sendo debatido em Pequim. Mas se a China continuar por esse caminho, estaremos diante da guinada mais significativa e perigosa da política internacional dos últimos 25 anos.

Tem sido noticiado que, nos últimos anos, Xi favorece a intensificação de uma retórica nacionalista, em grande parte antiamericana. É verdade, mas essa retórica nunca desapareceu. Nos anos de Hu Jintao, apareceram livros como The China Dream: Great Power Thinking and Strategic Posture in the Post-American Era (O Sonho da China: Grande Poder de Pensamento e Posicionamento Estratégico na Era Pós-americana), que pede a Pequim para buscar a supremacia global - colocando-se no lugar dos EUA - e oferecer ao mundo uma liderança mais prudente.

Uma avaliação realizada pelo jornal Christian Science Monitor concluiu que o número de questões contra o Ocidente noticiadas pelo jornal Diário do Povo em 2014 triplicou em comparação ao mesmo período do ano passado. Entretanto, o fato mais digno de nota é que a China começou uma campanha para propor alternativas à atual estrutura dos acordos internacionais na Ásia e em outras partes do mundo. Em Pequim, alguns querem deixar de ser antiamericanos para se tornarem pós-americanos.

Há alguns meses, a China liderou um acordo com Brasil, Rússia, Índia e África do Sul (com os quais compõe os Brics) com a finalidade de criar uma organização financeira em oposição ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em outubro, Pequim inaugurou o Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, com capital inicial de US$ 50 bilhões, que constitui uma alternativa ao Banco Mundial.

E na semana passada, Xi declarou que a China gastará US$ 40 bilhões na recuperação da Rota da Seda, uma antiga rota comercial, para promover o desenvolvimento da região. "À medida que o vigor nacional da China crescer, ela será capaz de proporcionar mais benefícios públicos à região da Ásia-Pacífico e ao mundo", disse ele.

Ao produzir mais "benefícios públicos" - bens que as pessoas devem poder desfrutar, mas não têm condições de pagar (como parques ou ar limpo) - a China daria um grande passo para frente. Entretanto, Pequim quer financiar esses benefícios para substituir o atual sistema internacional em lugar de aperfeiçoá-lo. Nos últimos anos, empreendeu esforços com o objetivo de excluir os EUA. Defendia uma Cúpula do Leste Asiático, como fórum asiático livre da influência americana. (O plano não funcionou.)

Em maio, Xi pronunciou um importante discurso sobre a segurança asiática na Conferência sobre Interação e Medidas destinadas a Criar Confiança na Ásia, um grupo ao qual Pequim dá enorme atenção e cujo mérito principal é a ausência da participação americana. No seu discurso, Xi disse: "Cabe ao povo da Ásia conduzir os assuntos da Ásia e defender a segurança da Ásia."

Se a China se enquadrasse no sistema atual, estaria contrariando suas mais profundas tradições históricas. Em seu recente livro World Order (Ordem Mundial), Henry Kissinger observa que a China nunca se sentiu à vontade com a ideia de um sistema global de países no mesmo patamar de igualdade. "Em termos históricos, a China se considerou, em certo sentido, o único governo soberano mundial. A diplomacia não consistia num processo de negociação entre múltiplos interesses soberanos, mas numa série de cerimônias cuidadosamente planejadas em que sociedades estrangeiras tinham a oportunidade de afirmar o lugar que lhes tinha sido destinado na hierarquia global". Na qual cabia à China o nível mais alto.

Os sinais são preocupantes, não pela eventualidade de os esforços de Pequim serem com certeza bem-sucedidos. Mas se a China usar seu crescente prestígio para continuar pedindo aos países que escolham entre os acordos existentes e os novos, poderá criar condições para um novo tipo de Guerra Fria na Ásia. Certamente contribuirá para minar e destruir a atual ordem internacional, que tem sido a plataforma sobre a qual a paz e a prosperidade existiram na Ásia em sete décadas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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