A influência fora do comum do Catar no mundo árabe

Com ajuda da TV Al-Jazira, pequeno país do Golfo Pérsico tem papel decisivo no Oriente Médio

ANTHONY, SHADID, THE NEW YORK TIMES, É CORRESPONDENTE, ANTHONY, SHADID, THE NEW YORK TIMES, É CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h02

O Catar é menor do que Connecticut e sua população, 225 mil, não encheria um bairro do Cairo. Mas, para um país que causa irritação e admiração, seu currículo é o seguinte: ele foi decisivo para isolar a Síria, ajudou a derrubar a ditadura da Líbia, ofereceu-se para mediar a crise no Iêmen e é amigo da figura mais poderosa da Tunísia.

Esse punhado de areia em forma de dedo no Golfo Pérsico destacou-se como o mais dinâmico país árabe no tumultuado realinhamento da região. Suas intenções permanecem nebulosas paras seus vizinhos e aliados - alguns dizem que o Catar tem um complexo de Napoleão, outros que tem uma agenda islâmica.

Sua influência é uma lição do que se pode ganhar com uma das maiores reservas de gás do mundo, a mais influente TV da região, a Al-Jazira, uma boa rede de contatos e com uma monarquia absoluta nas mãos de um único homem, o xeque Hamad bin Khalifa al-Thani.

O Catar tornou-se um contraponto vital no mundo árabe, onde potências tradicionais estão conturbadas pela revolução, ossificada por líderes envelhecidos, se recuperando de guerras civis, e onde os EUA são vistos como uma potência em declínio.

"Se eles preenchem um vazio? Sim", disse Bassma Koudmani, líder da oposição síria que creditou aos catarianos um papel-chave na espantosa decisão de sábado da Liga Árabe de suspender a Síria e isolar o governo de Bashar Assad."Eles estão assumindo um papel que era de outros países." Flanqueado pelos rivais maiores, Arábia Saudita e Irã, o Catar sempre jogou um papel desmedido no Golfo, mas nunca a esse grau.

O país abriga uma vasta base aérea dos EUA, mas algumas autoridades americanas suspeitam de seu recente apoio a líderes islâmicos, particularmente na Líbia. Irritadas com seu papel na condução da votação da Liga Árabe, autoridades sírias o chamaram de "lacaio de interesses americanos e israelenses".

Na segunda-feira, a Síria declarou que boicotaria os Jogos Árabes, em Doha, no próximo mês. Mas, apesar das contradições, o Catar está promovendo uma mudança na política árabe: um Oriente Médio dominado por partidos islâmicos trazidos ao poder em uma região mais democrática, conservadora e tumultuada. "O Catar é um país sem ideologia", disse Talai Atrissi, analista político libanês. "Eles sabem que os islâmicos são o novo poder no mundo árabe. Essa aliança assentará os alicerces para uma base de influência por toda a região."

Mas nem todos estão satisfeitos. "Quem é o Catar?", questionou o embaixador da Líbia na ONU, Abdel Rahman Shalgham, em um canal árabe alemão. Autoridades sírias têm feito essa pergunta à medida que a crise se aprofunda entre dois países que já foram amigos. Os sentimentos pessoais parecem pesar muito na política do Catar, como com a Líbia, onde a mulher do emir, Mozah, passou algum tempo quando criança.

Durante um bom tempo o país serviu de intermediário com a Síria, e investiu em uma economia que Assad tentava modernizar. Mas diplomatas dizem que o xeque Hamad se sentiu rejeitado por Assad em abril, pouco depois do início do levante sírio.

Alguns veem a política do Catar para a Síria por uma lente sectária, apoiando como apoia uma revolta muçulmana sunita (ele também apoiou a intervenção da Arábia Saudita no vizinho Bahrein para ajudar a conter protestos muçulmanos xiitas).

Outros a veem de uma maneira mais oportunista, proporcionando ao Catar uma forma de realinhar um Oriente Médio. "A Síria é um pivô crucial no Oriente Médio", disse Salman Shaikh, diretor do Brookings Doha Center, no Catar. "A Síria seria um alvo tentador demais para o Catar não se imiscuir de fora e estou certo de que ele o fará."

A ambição domina Doha, cuja silhueta frenética sugere um misto de Bagdá medieval e Blade Runner. A economia do Catar oferece indicadores superlativos: a mais alta taxa de crescimento e a mais alta renda per capita do mundo. Seu emir tem procurado conciliar o que parecia irreconciliável.

Yusuf Qaradawi, influente personagem islâmico egípcio, considera o Catar um lar. O mesmo fez Ali Sallabi, destacado islâmico líbio. Khaled Meshal, líder do Hamas, tem casa no país e especula-se que o Taleban do Afeganistão poderá abrir um escritório em Doha. Ao mesmo tempo, há escolas e companhias americanas instaladas nos mais modernos complexos do país. "Traga-os para cá, dê-lhes dinheiro e a coisa funcionará", disse Hamid al-Ansari, editor de um jornal, sobre o estilo do Catar.

O dinheiro é um instrumento para o papel do Catar na Líbia. Diplomatas dizem que milhões de dólares foram canalizados para a oposição, muitas vezes por canais que o Catar cultivou com expatriados. Um canal da oposição líbia foi criado em Doha. O Catar enviou ainda conselheiros treinados no Ocidente que ajudaram a financiar, treinar e armar rebeldes líbios.

O aparente favorecimento de islâmicos pelo Catar irritou figuras seculares. As autoridades catarianas não dão importância às acusações, mas muitos sugerem que o xeque tem uma afinidade maior com figuras islâmicas do que com seculares, como Assad.

Manter canais com um leque de forças é a pedra angular da política do Catar. Além de duas bases americanas com mais de 13 mil pessoas, o emir é popular no Líbano por ter ajudado a reconstruir cidades destruídas por Israel, em 2006. O país mantém ainda laços estreitos com a Irmandade Muçulmana, em suas encarnações na Líbia, Síria e Egito, e com figuras como Rachid al-Ghannouchi, islâmico tunisiano - pessoas que jogarão um papel crucial na próxima geração da política árabe.

O Catar também tem o que pode ser descrito como uma versão local do "poder brando": a influência da Al-Jazira, que o emir fundou e financia. Recentemente, o diretor geral da TV, Wadah Khanfar, foi afastado - muitos dizem que por pressão de Arábia Saudita e Jordânia, ambos irritados com reportagens da Al-Jazira. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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