A ingenuidade dos jovens que pararam a Praça Tahrir

Cenário: David Kirkpatrick

O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h00

Eles derrubaram um faraó, mas agora esse pequeno grupo de liberais, esquerdistas e islamistas que orquestraram a revolução do Egito percebem que não conseguiram acabar com as redes de poder alimentadas por Hosni Mubarak durante 30 anos. Foram ingênuos, afirmam, em se unir aos generais que tomaram o poder em seu nome.

"O sistema era como uma máquina coberta de plástico, nós só derrubamos o plástico", disse Islam Lotfy. Naquela época um astro em ascensão na Irmandade Muçulmana, ele acreditara que, se eliminasse o chefe de Estado, seu corpo desabaria. Ele diz que as raízes da elite que governa são muito mais profundas e obscuras do que inicialmente julgavam.

Segundo alguns deles, houve um encantamento com a fama, distraíram-se com as atenções da mídia e preferiram deixar a tomada de decisões aos mais velhos da oposição política da era Mubarak. Não puderam criar um movimento capaz de fazer frente à Irmandade Muçulmana ou à antiga elite secular da ditadura.

"Fomos enganados", diz Ahmed Maher, do Movimento 6 de abril. "No dia 14 de fevereiro, tivemos um encontro com o Conselho Supremo das Forças Armadas e essas pessoas foram muito espertas. Sorriram para nós e nos prometeram muitas coisas dizendo: 'Vocês são os nossos filhos, vocês fizeram o que nós queríamos fazer há muitos anos!'" Na semana seguinte, abriram novamente aquele sorriso e nos fizeram promessas vagas, e depois no mês seguinte.

Outros culpam a Irmandade Muçulmana, a força política mais organizada do Egito. Antes da derrubada de Mubarak, a Irmandade apoiava uma frente unida favorável à eleição do diplomata Mohamed ElBaradei, vencedor do Prêmio Nobel, inspirador e mentor dos jovens organizadores. Durante a revolta da Praça Tahrir, a Irmandade se tornou um respaldo fundamental para os protestos, e seus líderes se inspiraram nos jovens.

Mas desde a derrubada de Mubarak, a liderança da Irmandade mostrou-se pouco interessada em dar ouvidos aos jovens líderes ou em consultar ElBaradei. Em vez disso, quase imediatamente começou a se preparar para as eleições.

Lotfy, anteriormente o astro em ascensão na Irmandade, foi expulso do grupo e fundou um partido político, a Corrente Egípcia. Ele definiu seu projeto básico como a maior esperança para reduzir ao máximo a polarização entre islamistas e secularistas, mas a maior parte dos liberais ou dos centristas com os quais colaborou no início esquivou-se dos seus esforços em razão das suas raízes islâmicas.

Muitos jovens militantes que ajudaram a deflagrar a revolta estão voltando para ElBaradei. Depois que ele abandonou a campanha presidencial, afirmando que estava condenada sob o governo militar, tenta organizar um movimento político para os liberais que se opõem aos islamistas e ao autoritarismo respaldado pelos militares. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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