A inserção dos muçulmanos no projeto europeu

O islamismo é dinâmico e pode se adaptar ao Ocidente

É EX-CHANCELER DE ISRAEL, SHLOMO, BEN-AMI, PROJECT SYNDICATE , É EX-CHANCELER DE ISRAEL, SHLOMO, BEN-AMI, PROJECT SYNDICATE , O Estado de S.Paulo

06 Maio 2012 | 03h04

A orgia de matanças de Mohamed Merah em Toulouse, em março, os atentados de Madri, em 2004, e os ataques no metrô de Londres, em 2005, mostraram outra vez os dilemas que a Europa enfrenta com sua crescente minoria muçulmana. Nenhum modelo de integração social é infalível, mas o quadro é mesmo tão soturno como dizem os que temem o surgimento de uma "Eurabia"?

Nem o ethos multicultural nem a indiferença religiosa funcionaram conforme o planejado. O multiculturalismo na Grã-Bretanha entrincheirou comunidades muçulmanas quase autônomas e transformou o Islã em emblema de identidade para contrabalançar a exclusão. Da mesma forma, ao secularismo imposto na França parece ter aprofundado o apego dos muçulmanos franceses a sua identidade religiosa.

As altas taxas de desemprego entre muçulmanos europeus - o triplo da média nacional na maioria dos países - agravam sua marginalização social e autossegregação cultural. Isolados, destituídos e em estado de ira permanente, os subúrbios franceses e guetos britânicos se transformaram em barris de pólvora, onde os muçulmanos jovens são presas fáceis da pregação religiosa radical e do extremismo político.

Pelo menos 85 tribunais que obedecem a lei islâmica operam de maneira paralela na Grã-Bretanha, enquanto o número de mesquitas (1.689) é igual ao de igrejas anglicanas que fecharam recentemente (1.700). Mohamed é o nome mais popular para bebês do sexo masculino na Grã-Bretanha. Para o primeiro-ministro David Cameron, tudo isso representa o fruto podre do multiculturalismo.

Na verdade, não deveria surpreender que o entusiasmo pela autoafirmação religiosa seja mais forte entre imigrantes jovens de segunda geração. Seus pais, ainda influenciados pela vida sob as autocracias das quais fugiram, tendem a ser submissos ao poder vigente. As gerações mais jovens se rebelam precisamente porque internalizaram os valores de liberdade e escolha oferecidos pela democracia. De certo modo, sua rebelião é o selo de seu britanismo ou francesismo.

É verdade que alguns muçulmanos europeus jovens viajaram para Afeganistão, Paquistão e Iraque, que alguns chegaram ao Iêmen e à Somália, e voltaram como radicais empedernidos, soldados em uma guerra contra o Ocidente. Segundo o jovem britânico muçulmano Sidique Khan, ele participou dos atentados ao metrô de Londres "para vingar meus irmãos e irmãs muçulmanos". Tornar-se um fanático assassino como Merah ou Khan é, contudo, a escolha pessoal de uma mente patológica, não a tendência de uma geração. A rejeição social não transformou jovens muçulmanos franceses e britânicos em assassinos em massa e a paixão pela Al-Qaeda não esmagou seu desejo de se integrar.

O fluxo de muçulmanos para a Europa nas duas últimas gerações é o maior encontro entre o Islã e a modernidade de todos os tempos e rendeu benefícios incalculáveis, como uma crescente classe média islâmica, uma elite intelectual emergente e uma maior liberdade para mulheres muçulmanas. Pesquisas na França mostraram que a maioria dos muçulmanos aceita o secularismo, a igualdade de gêneros e outros valores republicanos.

Na Grã-Bretanha, os imigrantes vêm mudando o perfil étnico da classe média. Cada vez mais educados e financeiramente bem-sucedidos, os britânicos paquistaneses estão engajados na vida política, com mais de 200 representando os principais partidos políticos em conselhos locais. Na eleição de 2010, o número de membros muçulmanos britânicos na Câmara dos Comuns dobrou para 16. A mulher muçulmana mais influente na política britânica, Sayeeda Warsi, do Partido Conservador, juntou-se a outros muçulmanos na Câmara dos Lordes.

Considerar o Islã uma civilização que não é suscetível a mudanças é uma falácia histórica. A moderação religiosa continua sendo a chave, não só da integração social, mas também da oportunidade de muçulmanos influenciarem o futuro da Europa. O exemplo dos judeus europeus não é irrelevante. Uma tribo oprimida de Ostjuden, imigrantes destituídos das comunidades do Leste Europeu, foi transformada, em apenas duas gerações, de sapateiros, alfaiates e vendedores ambulantes em uma comunidade de escritores, filósofos, cientistas e magnatas.

Isso ocorreu porque eles reformaram seu judaísmo à luz dos valores ocidentais. Eles sabiam que não havia outra maneira de agarrar as oportunidades apresentadas pelo Ocidente. O judaísmo reformado na Alemanha resultou em um particularismo religioso capaz de criar um grau de universalismo maior do que o idealizado em qualquer outro período do passado judeu. Toda minoria religiosa em busca de um lugar na Europa deveria refletir sobre essa mudança. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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