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A inserção global do Brasil

O Brasil já se saiu bem na corrida pela vacina da covid, mas há mais três desafios

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2020 | 04h00

O  Brasil conseguiu a melhor largada possível na corrida global pela vacina contra a  covid-19, ao firmar parcerias com os laboratórios AstraZeneca e Sinovac. Esse modelo agora precisa ser copiado nas três outras estratégias que vão moldar a inserção global do País nas próximas décadas: a exploração da Amazônia, a instalação da frequência 5G e os acordos comerciais. As quatro frentes dependem uma da outra.

O programa de desenvolvimento de vacina da Universidade Oxford e da britânica-sueca AstraZeneca é o maior e mais adiantado do mundo. O Brasil investe US$ 127 milhões e receberá 30,4 milhões de doses e transferência de tecnologia. Serão investidos R$ 5 milhões na ampliação da planta da Fiocruz, para produzir até 40 milhões de doses por mês, sem suspender a fabricação das outras vacinas a cargo da fundação. Os Estados Unidos investiram nesse programa US$ 1,2 bilhão e encomendaram 300 milhões de doses. Outros países também participam da parceria. 

Antes disso, o governo de São Paulo havia firmado acordo com o laboratório chinês Sinovac, com investimento de R$ 85 milhões para a realização dos testes de sua vacina no Brasil. A parceria dará ao Instituto Butantã acesso à tecnologia para também fabricar a vacina. Fundada em 1999, a Sinovac está listada desde 2009 na Nasdaq, o pregão eletrônico que reúne companhias de alta tecnologia. Criadora da primeira vacina contra H1N1, não tem ligação com os escândalos de vacinas defeituosas ocorridos na China. 

Há uma corrida geopolítica entre China, de um lado, e Estados Unidos e Reino Unido, de outro, para ver quem chega antes à vacina. Com esse duplo acordo, o Brasil aproveita os resultados dessa competição. Não foi uma estratégia coordenada, mas fruto de outra competição, entre o governador João Dória e o presidente Jair Bolsonaro. Mas o resultado foi bom. As duas vacinas entrarão na rede do SUS.

A Academia Brasileira de Ciências apresentou, em 2008, o documento “Amazônia: Desafio Brasileiro do Século 21”, que propõe uma revolução científica e tecnológica para descobrirmos as riquezas escondidas na floresta: princípios ativos, insumos, matérias-primas e outras soluções de toda ordem. 

O plano prevê o investimento, em dez anos, de R$ 30 bilhões, ou R$ 55,31 bilhões em valores atualizados pelo INPC (0,8% do PIB de 2019). Para criar três institutos científico-tecnológicos e três universidades, formar cem doutores e custear os trabalhos de instituições e pesquisadores já existentes, nas áreas de água, mineração, saúde, recuperação de áreas degradadas, biodiversidade, antropologia e linguística, direito ambiental, logística, engenharia de transportes, biotecnologia, serviços dos ecossistemas e energias renováveis, entre outras. O biólogo Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus, que participou da elaboração da proposta, me disse na sexta-feira que ela continua atual. 

Em janeiro de 2018, Juan Carlos Castilla-Rubio, peruano radicado em São Paulo, especialista em biotecnologia e inteligência artificial, apresentou no Fórum Econômico Mundial de Davos, de cujo conselho ele faz parte, o “Projeto do Biogenoma da Amazônia”. A ideia é coletar todas as espécies de eucariontes (animais e vegetais a partir dos protozoários) da Amazônia e sequenciar seu genoma, para investigar soluções para a indústria, como biocombustíveis, matérias-primas, alimentos e medicamentos, entre outros. A proposta recebeu o apoio do Instituto Smithsonian e de centros de pesquisas europeus.

Parcerias com instituições científicas e empresas de outros países serão necessárias, para o Brasil se apropriar das verdadeiras riquezas da Amazônia, que estão na floresta viva, não destruída. Haverá uma corrida para participar dessas parcerias, e o Brasil pode se beneficiar dela. Voltarei a essa abordagem, para falar do 5G e do livre-comércio.

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