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A invasão do Capitólio 

O fato de haver voto livre não significa que os cidadãos sempre votem bem

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 04h30

Quando a United Press absorveu o International News Service, do qual meu pai havia sido gerente muitos anos, em Lima, minha família partiu para os Estados Unidos, país que ele admirava acima de todas as coisas: a frase, ou filosofia, do homem que se fazia sozinho – “the self-made man” – eu o ouvi repeti-la nos anos durante os quais vivi com ele. 

Não teve sorte. Soube disso muitos anos mais tarde, porque quando convidávamos minha mãe para a Europa, onde eu vivia havia alguns anos, ela era muito discreta e nos ocultava as peregrinações que fez com meu pai, de Nova York a Chicago e finalmente a Los Angeles, com empregos cada vez mais medíocres, até trabalhar nessa cidade primeiramente em uma fábrica e finalmente cuidando de uma sinagoga.

Na família, sempre acreditamos que minha mãe detestasse a vida americana e que se resignara a viver lá por causa do meu pai, que amava quase tanto como ele amava os Estados Unidos. Por isso, quando meu pai morreu, ela decidiu voltar a Los Angeles, o que nos deixou desconcertados. Principalmente a mim, que decidira adquirir a nacionalidade americana, algo que ele nunca quis ter.

Fui vê-la em Los Angeles, onde vivia sozinha, em um minúsculo apartamento no centro da cidade. Estava muito feliz por ter sido aprovada no exame de inglês, e me mostrou orgulhosa seu passaporte americano. Anos mais tarde, quando já estava bem velhinha para viver só, voltou ao Peru e deixou instruções para que, após a sua morte, devolvêssemos o passaporte à Embaixada dos Estados Unidos, coisa que cumprimos rigorosamente.

Nos últimos dias, tenho me perguntado muito o que teria dito minha mãe a respeito do assalto ao Capitólio, protagonizado, no dia 6 de janeiro, após escutar o seu frenético discurso, pelos partidários de Donald Trump que invadiram o Congresso, passearam por seus salões, e deram alguns tiros (houve cinco mortos naquele dia dentro e fora do prédio), à maneira mais tipicamente sul-americana. Ficaria indignada, claro. Ela admirava nos Estados Unidos o que não havia no Peru: o respeito à legalidade, à imprensa livre, à pureza das eleições. Jamais compreendeu o meu entusiasmo por Ronald Reagan: ela votava nos democratas porque, na sua opinião, os republicanos sempre foram “o partido dos ricos”, apesar de Lincoln e de Jefferson.

Em um excelente artigo (mas um tanto apocalíptico) publicado neste mês no The New York Times, The American Abyss, o professor de história da Universidade de Yale, Timothy Snyder, acusa o presidente Trump de ser um fascista e compara os assaltantes do Capitólio com os hitleristas que acreditavam que a Alemanha havia perdido a 1ª Guerra porque “os judeus cravaram um punhal em suas costas”, como recordava Hitler em seus discursos.

Acho que ele exagera e as loucuras e demagogias de Trump não significam o progresso do fascismo e do nazismo nos Estados Unidos, mas mostram quanto são precárias as democracias no mundo de hoje, inclusive nos países que, como os Estados Unidos, não conheceram ditaduras em sua história e viveram sempre em liberdade. São muito poucos.

Por outro lado, não há dúvidas de que a eleição de Trump, em 2016, foi uma verdadeira catástrofe para o país. Ela rebaixou os EUA à condição de uma nação terceiro-mundista pela quantidade de mentiras que propalou da Casa Branca, pela instabilidade institucional que propiciou e que não havia conhecido em toda a sua história e, principalmente na última eleição, com sua enlouquecida propaganda de que houve uma “fraude monstruosa” que deu a vitória ao seu adversário, algo que nenhuma jurisdição legal, nem democrata nem republicana respaldou, salvo os seus dementes partidários, um punhado dos quais, precisamente, atacou o Capitólio.

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O fascismo é o racismo, a demagogia, o espírito guerreiro, o nacionalismo frenético, e os Estados Unidos, embora na comunidade branca sobrevivam os preconceitos raciais, pela variedade de raças, religiões e culturas que os habitam e que forjaram a grandeza americana, não podem ser fascistas contra todas as suas leis e costumes. O que não impede, evidentemente, que haja gente estúpida, mas, devido à legalidade de que minha mãe tanto se orgulhava e a maioria dos norte-americanos respeita, mais do que em outras partes, haja um número menor do que entre os que viveram sempre rodeados da brutalidade política.

Pelo menos 170 dos invasores do Capitólio foram detidos e 70 deles já estão sendo processados. Isso não impede que a demagogia acelerada que Trump despejou da Casa Branca em todos esses anos tenha intensificado o ressentimento e a divisão social e racial a extremos que os Estados Unidos desconheciam. E não será fácil restaurar as boas relações do país com seus aliados tradicionais, algo que Trump destroçou no poder, declarando, ao assumir a presidência, entre outras barbaridades, que a figura que mais admirava como estadista no mundo de hoje era Vladimir Putin, ou seja, outro demagogo e mentiroso como ele mesmo. 

Estive muitas vezes nos Estados Unidos. E admiro muito o país, pelas razões pelas quais minha mãe o admirava, embora também admita as que meu pai preferia. Acredito que, lá, a democracia sempre funcionou e ela foi se aperfeiçoando com o passar dos anos e melhorando a sociedade graças às constantes reformas, e que se trata de um país verdadeiramente livre, um dos mais livres do mundo, como o descobrem e começam a viver em consonância, no respeito por suas leis, esses milhões de imigrantes que o construíram e aos quais deve em boa parte seus altos níveis de vida e seu poderio militar.

Essas coisas, como o amor pela liberdade, não se destroem da noite para o dia com a demagogia desse triste personagem que ocupou a presidência nesses anos. Por isso, é tão importante que triunfe o processo de impeachment iniciado pelos democratas na Câmara, que dominam por 35 votos, e os 10 republicanos que se uniram a eles. O que impediria a Trump de candidatar-se nas próximas eleições, pois, inclusive apenas como candidato, voltaria a fazer danos, distribuindo, prodigamente, como fez dessa vez, o ressentimento e as mentiras que muita gente ingênua e pouco preparada engoliu.

Uma última reflexão sobre a democracia. Como demonstrou Donald Trump, todas – isso mesmo, todas, até as que julgávamos mais antigas e sólidas – são precárias. O triunfo de Boris Johnson na Inglaterra por acaso não demonstrou isso? O fato de haver voto livre não significa que os cidadãos sempre votem bem. Muitas vezes votam mal e escolhem, não o melhor, mas o pior. Talvez seja este o melhor ensinamento que Trump nos deixou.

Os americanos escolheram mal – votaram mais contra Hillary Clinton do que a favor de Trump – e isso foi uma tragédia. Mas não há dúvida de que, principalmente depois da invasão ao Capitólio, levará muitos a refletir, o país se reconstruirá desde esses abismos nos quais o atirou Trump, e voltará a ser o que foi até o ano 2016: o líder das nações livres, que salvou o mundo inteiro de cair nos braços de Hitler e depois de Stalin, e, embora tenha cometido ultrajes e abusos em sua história, na América Latina principalmente, está sempre ali, como uma esperança para os que – e são muitos milhões – no mundo de hoje continuam sonhando com a liberdade. Não só de ler um jornal e ouvir na televisão as críticas ao governo do momento, mas de poder decidir a própria vida de acordo com convicções pessoais, e de trabalhar para conseguir um futuro graças ao esforço pessoal. Do modo como ocorreram as coisas, ainda há lugar para a esperança. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA 

*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 

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