A Irmandade Muçulmana conquista o país

Análise: David D. Kirkpatrick / NYT

O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2012 | 03h01

Os militares que governam o Egito reconheceram no domingo que Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, venceu as eleições presidenciais, dando aos islamistas um triunfo simbólico e uma arma poderosa em sua luta pelo poder contra os generais. Morsi, de 60 anos, engenheiro formado nos EUA e ex-parlamentar, é o primeiro islâmico radical eleito chefe de um Estado árabe. Mas sua vitória é um marco ambíguo na prometida transição para a democracia.

Depois de uma semana de dúvidas, adiamentos e temores de golpe de Estado, desde que a contagem dos votos mostrou Morsi à frente, os generais revelaram certo respeito por alguns elementos fundamentais da democracia: aceitaram a derrota de seu candidato, o general da reserva Ahmed Shafiq. Mas o reconhecimento de Morsi como presidente não ajuda a solucionar o impasse entre generais e Irmandade com relação às instituições do governo e à futura Constituição.

A menos de duas semanas da prometida saída do poder, no dia 30, os generais fecharam o Parlamento eleito e liderado por islâmicos radicais, assumiram o poder de legislar, de estabelecer orçamentos, decretaram uma Constituição provisória e voltaram a impor a lei marcial, autorizando os soldados a prender civis.

No domingo, a capital estava tensa em razão dos temores de que a comissão de juízes declarasse Shafiq presidente, completando o golpe militar. Bancos, escolas e repartições públicas fecharam mais cedo, prevendo atos de violência. Milhares de partidários da Irmandade reuniram-se na Praça Tahrir pelo sexto dia para exigir que os militares desistissem do poder. A multidão silenciou quando as rádios da praça começaram a transmitir o discurso do representante do tribunal eleitoral anunciando os resultados oficiais.

A praça explodiu ao ouvir os números da consagração: Morsi recebera 51,7% dos votos no segundo turno. "Morsi, Morsi!", gritou o povo. "Abaixo o governo militar!" Pequenos fogos estouraram, os partidários da Irmandade apareceram e a multidão chegou a 100 mil pessoas. Num clima carnavalesco, ambulantes distribuíam algodão doce e jogavam frutas.

Após ser considerada por 84 anos uma sociedade secreta, várias vezes proibida, lutando nas prisões e à sombra de monarcas e ditadores, a Irmandade agora está mais perto do que nunca do seu objetivo: construir uma democracia islâmica radical no Egito. "Queria que isso ocorresse nos meus sonhos, mas agora é incrível", disse Hudaida Hassan, de 20 anos. Mas, mesmo em um momento vitorioso, os líderes da Irmandade sabem que a luta está longe de encerrada e prometeram continuar a luta nos tribunais e nas ruas para restabelecer o Parlamento. Em seu primeiro pronunciamento como presidente, Morsi declarou que só tomará posse diante do Parlamento e não diante da Suprema Corte, como decretaram os generais. O braço político da Irmandade informou em seu site que a guarda presidencial, que antes servia Mubarak, chegara à residência de Morsi para protegê-lo, o que antes parecia impossível.

Cumprindo a promessa de campanha de que representaria todos os egípcios, Morsi demitiu-se da Irmandade e do seu braço político, o Partido da Liberdade e Justiça. A imprensa oficial noticiou que o premiê e seu gabinete renunciariam imediatamente para que Morsi possa nomear sua equipe. Enquanto isso, a Irmandade começou a recompor a aliança com liberais e militantes seculares para fazer frente aos generais. Morsi prometeu nomear um primeiro-ministro e outros membros do primeiro escalão entre pessoas de fora da Irmandade, formando um governo de unidade.

Ao mesmo tempo, ele fez campanha não como indivíduo dotado de uma visão própria, e sim como o executor da plataforma da Irmandade. Morsi foi o segundo candidato indicado do grupo, depois que o principal estrategista e líder mais influente da Irmandade, Khairat el-Shater, foi desqualificado. Morsi prometeu implementar o programa que Shater elaborou para a reformar os ministérios. Morsi e Shater nunca procuraram desmentir as acusações de que Shater teria o poder de fato num governo de Morsi.

Desconhecido. Mesmo após a campanha presidencial, Morsi continua sendo uma figura pouco conhecida da maioria. Ele fez doutorado em engenharia de materiais na Universidade do Sul da Califórnia, em 1982. Quem o conheceu em Los Angeles diz que ele nunca pareceu político ou religioso. Morsi, porém, retornou para lecionar na Universidade Zagazig, onde tornou-se líder da Irmandade e, por fim, um de seus primeiros membros no Parlamento dominado por Mubarak.

Ele foi escolhido pelo alto escalão para liderar o pequeno bloco parlamentar da Irmandade, que contava então com apenas 18 dos mais de 500 parlamentares. Com isso, teve um papel importante no primeiro experimento do grupo na democracia pluripartidária. Nos anos seguintes, quando foi alçado ao conselho diretor da Irmandade, ganhou uma reputação de intransigência. Quando a Irmandade adotou uma plataforma partidária, em 2007, que pretendia proibir o voto feminino, Morsi foi um dos principais defensores.

Desde a deposição de Mubarak, a Irmandade tirou essas posições de sua plataforma, mas, durante a campanha, Morsi disse que, no plano pessoal, ele ainda acreditava que a presidência só deveria ser ocupada por um homem muçulmano. No entanto, o júbilo com sua vitória pareceu empolgar seus apoiadores, e, por enquanto, conquistou até os seculares.

A designação de Morsi como presidente eleito dará à Irmandade uma importante âncora em sua luta pelo poder. O grupo tem tentado reconstruir a parceria com seculares e liberais que se uniram no levante contra Mubarak. Líderes da Irmandade prometem não realizar nenhuma negociação com os generais sem a participação dos outros grupos de sua "frente nacional".

Numa declaração, a Casa Branca se referiu a essa promessa, cumprimentando Morsi. "Acreditamos na importância do novo governo egípcio sustentar valores universais e respeitar os direitos de todos os cidadãos." A reação em Israel foi discreta. As autoridades israelenses observaram os eventos turbulentos com apreensão, refletindo temores de que a antiga observância pelos generais egípcios de um tratado de paz com Israel possa ser objeto de revisão por um novo governo.

Em Gaza, onde predomina o aliado da Irmandade, o Hamas, as celebrações foram ruidosas. Homens armados fizeram disparos para o ar. Shafiq permaneceu em silêncio, mas alguns de seus seguidores fizeram protestos e denunciaram a decisão da comissão eleitoral. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E CELSO PACIORNIK

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