A irrelevância do bolivariano

Instituições democráticas e economia sofrem com radicalismo de Hugo Chávez

Francisco Toro, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2012 | 03h04

CARACAS - Com Hugo Chávez, o ícone da esquerda da América Latina, mantido no cargo, a questão que prevalece há mais de dez anos sobre o rumo da região não é "à direita ou à esquerda", mas "que esquerda?"

Analistas estrangeiros com frequência interpretaram a tendência para a esquerda do continente latino-americano nos últimos 12 anos como um movimento de líderes numa marcha rigidamente ideológica. Mas dentro da região, as fraturas sempre foram claras.

Os regimes revolucionários radicais na Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua uniram-se a Cuba, o avô da extrema esquerda, formando um bloco determinado a confrontar o mundo capitalista, mesmo que isso significasse um governo cada vez mais autoritário.

Um grupo mais moderado de líderes no Brasil, no Uruguai e na Guatemala ofereceu uma alternativa: reduzir a pobreza implementando importantes reformas sociais, mas sem dar as costas para as instituições democráticas ou os direitos da propriedade privada.

Como filho favorito de Fidel Castro, o venezuelano Hugo Chávez sempre foi o líder da ala radical. E o tamanho e o poder econômico do Brasil tornaram esse país o líder da ala reformista.

Aparentemente os dois campos se empenham para negar que há divisões. Houve manifestações de solidariedade e muitos acordos de integração regional. Por trás das portas fechadas, cada lado com frequência desdenha cruelmente o outro, com os partidários de Chávez encarando os brasileiros como apaziguadores pusilânimes da burguesia, ao passo que os brasileiros desprezam o radicalismo ultrapassado e a incompetência crônica de Chávez.

Há cerca de cinco ou seis anos, existia uma disputa ideológica real. Um presidente americano bastante impopular inclinado a aventuras militares ajudou Chávez a congregar o continente contra Washington. Um país após o outro aderiu ao eixo radical. Primeiro a Bolívia, depois a Nicarágua, Honduras e Equador se juntaram numa lista cada vez mais longa de radicais em 2005 e 2006.

Hoje a paisagem política se transformou quase que inteiramente. A vitória de Barack Obama em 2008 corroeu a capacidade desses radicais de reunir uma oposição ao imperialismo gringo. Inversamente, a alternativa ficou cada vez mais atraente.

O sucesso espetacular do Brasil e o seu programa para reduzir a pobreza no país falam por si. Com base em uma estabilidade macroeconômica e instituições democráticas estáveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que governou o país de 2003 a 2010, conduziu o período mais notável de mobilidade social que se tem memória na América Latina.

À medida que milhões de brasileiros ascenderam para a classe média, os excessos autocráticos de Chávez começaram a ser vistos como desnecessários e indesculpáveis para os venezuelanos. Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff, mostraram que um país não necessita cercear os tribunais, realizar um expurgo no Exército e politizar o banco central para combater a pobreza. O Brasil prova isso silenciosamente todos os dias.

Não são apenas as instituições democráticas que sofreram com o radicalismo de Chávez, mas a economia também.

A tradicional dependência da Venezuela das exportações de petróleo aumentou, com 96% das suas receitas de exportação vindo do setor petrolífero, em comparação com os 67% antes de Chávez assumir o governo. As siderúrgicas nacionalizadas produzem uma fração do aço necessário, forçando o Estado a importar a diferença. E as concessionárias de energia elétrica, também nacionalizadas, deixam a maior parte do país no escuro diversas vezes por semana.

O contraste com a economia empresarial, de alta tecnologia e voltada para a exportação, do Brasil não poderia ser mais marcante.

Apesar do discurso de transformação radical do presidente venezuelano, as estatísticas sobre a mortalidade infantil e o analfabetismo entre os adultos no país não melhoraram mais rápido sob seu governo do que nas várias décadas antes de ele assumir o poder.

Com as instituições fiscalizadoras neutralizadas, o presidente hoje governa o país como um feudo pessoal: expropria empresas à sua vontade e resolve quem deve ser preso.

Os juízes que decidem contra os desejos do governo são comumente demitidos, um deles até foi preso. O socialismo estilo Chávez parece ser o pior dos mundos: mais autoritário e menos eficaz na redução da pobreza do que a alternativa brasileira.

E a região já observou o fato. O momento chave ocorreu em abril de 2011, quando Ollanta Humala venceu as eleições presidenciais no Peru.

Visto há muito tempo como o mais radical da nova safra de líderes latino-americanos, Humala venceu com base numa plataforma similar à de Chávez em 2006 e perdeu. No ano passado, ele percebeu a direção em que o vento estava soprando e se transformou num moderado no estilo brasileiro, venceu e governa - até agora com sucesso - nos moldes brasileiros.

Chávez enfrentou uma disputa acirrada pela reeleição contra Henrique Capriles Radonski, governador progressista de 40 anos que exalta o modelo brasileiro.

Embora o seu governo tenha feito o máximo para pintar uma caricatura de Capriles como um oligarca de direita ao estilo antigo, ele se insere no estilo de centro-esquerda brasileiro. Capriles se qualificou como um reformador ambicioso, mas pragmático e voltado para o social, disposto a pôr fim aos excessos autoritários da era Chávez.

O restante da América Latina já superou a batalha ideológica na qual a Venezuela continua atolada. De um modo geral, outras nações fizeram suas escolhas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É JORNALISTA, CIENTISTA POLÍTICO E BLOGUEIRO

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