A irresponsável meritocracia

Usando a inteligência para o próprio bem, a elite é responsável por levar-nos para o abismo nos últimos anos

É COLUNISTA, ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h08

Esta é uma história sobre a promessa da América. Um menino cresce na zona rural de Illinois, neto de um agricultor que perdeu tudo na Grande Depressão. Ele frequenta a escola secundária da pequena cidade, depois cursa a universidade do Estado, onde é honrado com o título de membro Phi Beta Kappa (sociedade americana que congrega estudantes universitários que atingiram o mais alto nível nos estudos).

Ele cumpre seu serviço militar, obtém seu MBA e depois vai trabalhar num dos bancos regionais do Meio Oeste. Numa era diferente, ele talvez permanecesse ali durante todo o restante de sua carreira. Mas o jovem teve a sorte de viver nas décadas de 60 e 70, exatamente quando a elite branca, protestante e anglo-saxã estava se dissipando e as grandes instituições da Costa Leste abriam suas portas para pessoas lutadoras de todos os lugares. Assim, nosso menino de uma fazenda de Illinois prossegue ascendendo na carreira.

Ele muda para New Jersey e vai trabalhar no banco Goldman Sachs. Progride na carreira e se torna CEO da instituição e muitas vezes milionário. Entra na política, conquista um mandato no Senado e é eleito governador de New Jersey. Quando perde a disputa para sua reeleição como governador, retorna a Wall Street como diretor de uma empresa de serviços financeiros.

Neste momento você pode ter percebido que estou falando de Jon Corzine. Neste caso, provavelmente sabe também que esta história inspiradora teve um final infeliz - para New Jersey, que se deparou com um enorme desastre orçamentário quando Corzine deixou o cargo; para sua empresa de Wall Street, MF Global, que na semana passada pediu falência depois de perder US$ 600 milhões de clientes; e para o antigo menino da fazenda de Illinois, que renunciou na sexta-feira completamente desacreditado.

Mas essa súbita queda não torna a história de vida de Jon Corzine menos emblemática da nossa era da meritocracia. De fato, sua ascensão, irresponsabilidade e ruína são uma coisa só. Há décadas os EUA vêm abrindo caminho no sentido de privilegiar seus jovens mais brilhantes e determinados, selecionando os melhores e mais brilhantes jovens de Illinois, Mississippi e Montana e colocando-os em funções de poder em Manhattan e Washington. Ao promover os filhos de agricultores e porteiros, como também advogados e corretores de bolsas, criamos o que parecia ser a elite mais trabalhadora e capaz, com um alto QI de toda a história da humanidade.

Interesses. Mas nos últimos dez anos o que vimos foi esta mesma elite nos levar para o abismo - principalmente por usar sua inteligência para seu próprio bem. Nas aristocracias hereditárias, as debacles costumam surgir com a estupidez e a obstinação. Nas meritocracias, contudo, é a própria inteligência de nossos líderes que cria os piores desastres. Convencidos de que suas capacidades pessoais conseguem fazer frente a qualquer tarefa ou desafio, os meritocratas assumem riscos que as elites menos brilhantes jamais contemplariam.

Inevitavelmente, quanto maior o orgulho, maior o tombo. Robert McNamara e os meninos gênios da era do Vietnã achavam que conseguiram reduzir a guerra a uma ciência exata. Alan Greenspan e Robert Rubin pensavam ter feito o mesmo no tocante à economia global.

Para os arquitetos da Guerra do Iraque, o Exército americano libertaria o Oriente Médio das ciladas da História; os artífices da União Europeia acreditavam que uma moeda comum faria o mesmo no caso da Europa. E para Jon Corzine sua sagacidade o capacitava a transformar uma corretora de segundo escalão numa próxima Goldman Sachs, investindo muito, apostando muito e esperando pelas recompensas.

No lugar de meritocratas irresponsáveis, não precisamos de ignorantes incapazes, mas de líderes inteligentes que conhecem os próprios limites, pessoas experientes cujas vidas as ensinou o que é a prudência. Ainda necessitamos dos melhores e mais brilhantes, mas é preciso que eles, de alguma maneira, tenham aprendido ao longo da vida a ser mais humildes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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