A islamofobia radical do terrorista norueguês

Anders Breivik não é um caso isolado de violência, mas reflexo de um sentimento radical mais profundo, tão paranoico quanto o 'califado' ideal de Osama bin Laden

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2011 | 00h00

Até certo ponto, Anders Behring Breivik, o norueguês responsável pelo maior massacre cometido por um único atirador dos tempos modernos, não passa de um solitário psicótico particularmente homicida: é um filhinho da mamãe de 32 anos, sem nenhum contato com o pai, obcecado por videogames como Dragon Age II e vaidoso. "Tinha uma garota atraente me olhando no refeitório", escreveu em seu diário. Ele dedicava seu tempo em isolamento assexuado ao cultivo do ódio e à montagem de uma bomba com aspirina esmagada e fertilizante. Com certeza, é assim que os direitistas "islamofóbicos" na Europa e nos EUA que compartilham sua visão, mas não seus métodos, tentarão retratar Breivik.

Já vimos esse filme. Quando Jared Loughner atirou na deputada democrata Gabrielle Giffords no começo do ano em Tucson, no Arizona, a direita deu duro para retratar Loughner como um solitário esquizofrênico. Seu universo maluco nada teria a ver com os que espalhavam o ódio sob o slogan "Take America Back". (Essa "recuperação" (take back) não especifica, é claro, retirar o que foi supostamente tomado por muçulmanos, liberais e judeus, como os Giffords).

Breivik não é um solitário. Sua violência foi fermentada em um ambiente europeu específico, que compartilha características com o ambiente americano específico de Loughner: relativo declínio econômico, recuperação econômica sem criação de emprego, ansiedade da classe média e níveis elevados de imigração servindo de pano de fundo para a islamofobia racista e o uso do espectro espúrio de uma "tomada de controle muçulmana" como uma lança política para canalizar as frustações da direita.

Numa anotação de 11 de junho em seu manifesto online de 1.500 páginas, Breivik escreveu: "Hoje eu rezei pela primeira vez depois de muito tempo. Expliquei a Deus que a menos que ele queira que a tomada de controle da Europa pelos islâmicos, aliada ao marxismo, aniquile completamente a cristandade europeia nos próximos cem anos, ele precisa assegurar que os guerreiros que combatem pela preservação da cristandade europeia prevaleçam."

Dois dias depois, ele testou sua bomba caseira. A detonação foi bem-sucedida." A cristandade europeia nesse contexto é uma imagem espelhada do califado idealizado por Osama bin Laden. É a causa dos sonhos para recrutar as massas em um esforço de guerra apocalíptico contra um inimigo "infiel", que supostamente ameaça a integridade territorial, moral e cultural de uma comunidade de devotos.

"Al-Qaeda cristã". Essa Europa cristã de Breivik é tão fantástica quanto o ressurgimento de um califado do século 7. O continente é avassaladoramente secular por razões que não têm nada a ver com uma crescente presença muçulmana. Bin Laden investia contra "cruzados". Breivik participou em 2002 de uma reunião para reconstituir os Cavaleiros Templários, uma ordem militar do tempo das cruzadas. Isso seria coisa para videogames se não culminasse com a morte de adolescentes reais de todas as fés.

O que ficou claro em Oslo e na Ilha de Utoya é que o ilusório ódio direitista antimuçulmano voltado contra liberais "multiculturalistas" pode ser tão perigoso como o veneno contra infiéis da Al-Qaeda. Breivik sozinho matou mais pessoas que os quatro terroristas suicidas islâmicos no ataque de 7 de julho de 2005 em Londres.

Breivik tem muitos companheiros de viagem ideológicos nos dois lados do Atlântico. Foi no seu veneno que ele refinou seu ressentimento homicida. Os facilitadores incluem Geert Wilders na Holanda, que comparou o Alcorão a Mein Kampf na corrida em que recebeu 15,5% dos votos na eleição de 2010; Marine Le Pen na França, que usa analogias nazistas enquanto despeja escárnio em muçulmanos devotos. Também há os partidos de extrema direita na Suécia, Dinamarca e Grã-Bretanha, que culpam a imigração muçulmana por qualquer problema; republicanos como o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich e o deputado Peter King, que consideraram politicamente oportuno combater "a assustadora sharia nos EUA" em um momento em que o nome do meio do presidente americano é Hussein; pastores de igrejas dos Estados Unidos usando seus púlpitos semana após semana para dizer que a América é uma nação cristã sob ameaça iminente do Islã.

Os muçulmanos não fizeram o suficiente na última década para denunciar os que deformaram sua religião em nome do assassinato jihadista. Será que a multidão islamofóbica europeia e americana denunciará agora o que Breivik fez sob sua bandeira ideológica? Duvido. Vamos ouvir um bocado sobre o quanto ele era solitário.

Enormes problemas sociais acompanharam a imigração muçulmana na Europa nas últimas décadas, muito maiores que nos EUA. Há muitas responsabilidades para serem divididas. Os imigrantes com frequência enfrentaram racismo e exclusão. Os valores do Islã sobre mulheres, casamento e homossexualismo, assim como a própria vitalidade da religião, incomodaram uma Europa secular. O quadro não é uniforme - existem casos de integração bem-sucedida -, mas é perturbador.

Mas nada pode desculpar a difundida aceitação de um racismo antimuçulmano um dia reservado aos judeus da Europa. Não no fim de semana em que se foi Amy Winehouse, uma garota judia cujo talento artístico um dia teria sido rejeitado por uma direita europeia racista e assassina como lixo "cosmopolita" degenerado. Uma boa maneira de lembrá-la é, enfim, enfrentar a mais recente repetição de um fanatismo europeu que mata. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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