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A Itália pós-eleição na UE

Recolhamos os mortos e contemos os mutilados após a eleição para o Parlamento Europeu. O mais estropiado de todos é o socialista François Hollande, presidente da França. No entanto, o conservador David Cameron, premiê britânico, também foi atingido por estilhaços de obuses, pois o líder populista Niguel Farage conseguiu arrebatar 28% dos votos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2014 | 02h01

Entre os poucos que conseguiram se salvar desse tsunami europeu está a chanceler alemã, Angela Merkel, mas isso já era esperado. Não estava previsto o sucesso do italiano Matteo Renzi, chefe do Partido Democrata, que assumiu o poder na Itália em fevereiro, depois de apunhalar pelas costas seu colega de partido Enrico Letta.

Se por um lado essas eleições europeias levaram ao pináculo os populistas de extrema direita (como Marine Le Pen) e desorientaram os partidos tradicionais, o jovem premiê italiano realizou uma dupla façanha: derrotou o populista Beppe Grilo (teve 40,8% dos votos, enquanto Grillo obteve 21,25%) e esmagou o acrobata Silvio Berlusconi, que, aos 77 anos e com apenas 17% dos votos, terá dificuldade para voltar a montar em seu cavalo.

Na queda das esquerdas europeias, Renzi surge como um milagre, talvez salvador. Ele deverá assumir o papel de líder da esquerda na UE, ocupando o lugar até agora de Hollande, que hoje está queimado, assado e calcinado. Em 1.º de julho, exatamente a Itália assumirá a presidência rotativa do bloco.

Renzi representa a esperança das esquerdas europeias. Uma proeza, porque se Hollande é um "filho do socialismo", a trajetória do italiano é mais curiosa: esse ex-prefeito de Florença não só chegou ao poder sem passar pelo veredicto das urnas, mas outrora foi escoteiro e militante da defunta Democracia Cristã, uma formação de direita.

O jovem Renzi é um homem que tem pressa. Não teme defender a memória do antigo dirigente comunista Enrico Berlinguer, homem realmente notável. Em seus discursos, afirma que não é um homem de esquerda, mas faz coisas de esquerda. Não devemos esquecer que seu atual partido nasceu em 2007 da fusão entre os antigos comunistas e os velhos democratas-cristãos de esquerda.

São reformas mais à esquerda as que ele empreende com energia e rapidez desde que assumiu e, ele espera, chegarão a outros países. Renzi gostaria de assumir a chefia de uma "frente antiausteridade (que as mãos débeis de Hollande não podem mais conduzir), com base no modelo que adotou para a Itália: flexibilização das restrições orçamentárias, redução de 10% nos encargos das empresas e corte de 10 bilhões (R$ 32,4 bilhões) no imposto de renda para as pessoas que ganham menos de 1,5 mil. Ele vai injetar 90 bilhões numa economia italiana cujo crescimento é quase nulo há 20 anos.

Quais suas intenções? Colocar a Itália como uma das líderes da esquerda europeia, sem dúvida, mas seus sonhos não vão além disso? Imaginemos, por exemplo, Renzi substituindo o motor "franco-alemão" por um "italo-alemão". Claro que Merkel, de palavras compassivas para o valente Hollande, deve se sentir muito só nesse "calhambeque franco-alemão".

Renzi defende-se diante de tais disparates e procura destacar sobretudo a solidariedade das esquerdas. Um dos seus assessores, Sandro Gozi, lamenta que o eixo franco-alemão tenha conseguido, diante da supremacia de Merkel, levar a esquerda a "apoiar políticas de direita".

Pragmatismo. A equipe italiana vai mais longe, afirmando ser nocivo para a UE o hábito de construir alianças entre dois ou três países. Por exemplo, o que poderia ser um eixo ítalo-alemão em detrimento da França. E como não aprovar essa ideia? Nada é mais prejudicial ao conceito europeu do que as diplomacias internas da UE que visam a composição de pequenas alianças entre essa ou aquela peça do quebra-cabeça indecifrável que se tornou a Europa. Enfim, Renzi era um democrata-cristão há alguns anos. Hoje é um democrata. Um pragmático. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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