A jogada certa na hora certa

Com reaproximação de Cuba, Obama rasgou e queimou prematuros obituários políticos

CHARLES D. ELLISON, THE NEW YORK TIMES

20 de dezembro de 2014 | 02h01

Numa surpreendente e desconcertante recuperação após as eleições de meio do mandato, dias antes do recesso de fim de ano, o presidente Barack Obama anunciou o primeiro passo de um grande descongelamento das tensões entre os Estados Unidos e Cuba em mais de meio século.

As implicações são, sem dúvida, enormes. Não só o aguerrido presidente rasgou e depois queimou os prematuros obituários políticos publicados a seu respeito no mês passado, como também provocou a explosão de uma das maiores bombas geopolíticas da história.

A normalização dos vínculos entre os dois rivais hemisféricos, separados por apenas 145 quilômetros de idílicas águas azuis, produzirá uma série de abalos secundários. Mas é preciso compreender que isso não significa uma suspensão total do embargo que dura 54 anos. As duas Câmaras do Congresso americano, que passam a ser dominadas pelos republicanos em janeiro, se incumbirão dessa desagradável tarefa.

Entretanto, ela significará a reabertura da embaixada americana em Havana, a retomada dos intercâmbios comerciais, das viagens e das transações financeiras. Não só as pessoas poderão pegar um voo direto para a ilha, como também usar os próprios cartões de crédito e débito.

Enquanto a nação estupefata absorve os recentes acontecimentos, é preciso saber alguns aspectos importantes sobre eles. Em primeiro lugar, com uma só tacada, o presidente Obama dividiu o clube vencedor republicano das eleições de meio de mandato adotando impávido o discurso de um governante em fim de mandato. Não só Obama ainda é importante, como medidas como essa mostram que ele continua presidente - e ainda pode provocar impactos. A pergunta é: Ele conseguirá manter o mesmo impulso no próximo ano? Não está garantido.

Ocorre que a bola está no campo dos republicanos, mas eles saberão chutá-la de volta? Os republicanos ansiavam muito pelo controle da Câmara e do Senado - agora eles terão, assim como uma votação desconfortável sobre o levantamento das sanções contra Cuba. Isso complica consideravelmente o cálculo político para o Partido Republicano, em vista das eleições de 2016 e, principalmente, para prováveis candidatos presidenciais como o senador Marco Rubio, da Flórida, e o ex-governador também desse Estado Jeb Bush.

O senso comum presume estupidamente que isso coloca Rubio numa boa posição - porque ele é cubano e, vejam só, Cuba está nas primeiras páginas de todos os jornais.

Mas o fato de ele se opor ao levantamento do embargo o coloca em conflito com um eleitorado cubano-americano muito mais jovem, na Flórida. As pesquisas mostram que muitos cubanos que vivem nos EUA estão cansados de ouvir velhos tios resmungar contra Castro enquanto se debruçam o dia todo sobre o jogo de dominó no calor de Miami. Eles veem Jay Z e Beyoncé viajando normalmente para Havana e querem fazer o mesmo.

A Flórida não será uma conquista tão fácil para republicanos apesar da reeleição do governador Rick Scott por estreita margem, no mês passado. O decisivo eleitorado cubano-americano tende agora para o azul democrata. Somando o anúncio à jogada do presidente sobre a reforma da imigração, é previsível que os hispânicos caribenhos votem com os emigrados da diáspora a favor dos democratas em 2016.

Para os que o odeiam, Obama ainda é o senhor do tabuleiro geopolítico. Não se deve excluí-lo na hora de usar a diplomacia e o jogo complicado da política externa. Esse é o ambiente que se move lentamente em que ele prefere deliberar. As peças do dominó estão caindo em torno disso. Os conservadores fazem pilheiras idiotas sobre a troca dos prisioneiros. Entretanto, não só os EUA ganharam um novo amigo em seu quintal, como tiraram o velho amigo da Rússia, Irã, Coreia do Norte e da vizinha Venezuela à beira do golpe e do colapso político.

Os quatro já sofrem as consequências das sanções e da queda inteligentemente orquestrada dos preços do petróleo, o que torna demasiado dispendioso para os inimigos bajular Cuba para usá-la como um espinho no flanco geográfico dos EUA. É um tapa na cara de Vladimir Putin (mais uma vez).

Essa medida prova que não há necessidade de poder de fogo militar ou de capacidade nuclear para atingir um objetivo. Hoje em dia, basta provocar uma guerra financeira e a economia do inimigo mergulhará em queda livre. Pergunte ao Irã.

Desde os tempos da União Soviética, Cuba tem sido uma fiel amiga da Rússia e previa-se que continuaria assim, pelo menos enquanto Moscou reabria uma base de espiões no sul de Havana e perdoava uma dívida de aproximadamente US$ 30 bilhões da era soviética. Mas essa medida poderá tirar uma possibilidade do presidente russo, Vladimir Putin, que, sejamos honestos, está sendo obrigado a firmar acordos na surdina com Obama a respeito da Ucrânia, ao contrário do que o público imagina.

Além de tudo, o presidente americano ganhou um parceiro na luta contra o Ebola, e um forte aliado para a promoção dos interesses americanos na África.

Cuba tem ativos na África Subsaariana desde os anos 60, porque Fidel Castro jogou com sucesso a cartada do panafricanismo para conservar o apoio da enorme população afro-cubana. Afinal, Cuba combateu contra o Exército da África do Sul em Angola enquanto treinava opositores do apartheid contra Pretoria.

Portanto, não surpreende que Cuba tenha enviado cerca de 200 médicos extraordinariamente preparados para combater o Ebola ao lado das tropas e dos trabalhadores da ajuda dos EUA. Não é como se alguma nação ocidental - ou mesmo a China, Rússia ou Índia - se apresentasse para dar sua contribuição como Cuba, um país há muito tempo admirado pela avançada formação dos seus médicos e pela assistência médica gratuita.

Enquanto o Ebola torna velhos inimigos em amigos para acabar com o vírus, os EUA verão a possibilidade de acionar um canal lucrativo nas economias africanas e um relacionamento que ajudará a deter o avanço dos militantes islâmicos em todo o continente. Todas as peças estão no tabuleiro para a jogada certa no momento certo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESTRATEGISTA POLÍTICO

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