REUTERS/Alkis Konstantinidis
REUTERS/Alkis Konstantinidis

A justiça após o EI

Não sabemos se os corpos são de vítimas ou de assassinos. São apenas mortos

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2017 | 05h00

As duas capitais do Estado Islâmico agonizam. Mossul no Iraque, cuja libertação foi anunciada no domingo, e Raqqa na Síria, onde os jihadistas estão cercados. Destes dias de sangue e de bombas, o que vemos são imagens roubadas por jornalistas corajosos, fotos aéreas das cidades onde apenas subsistem troncos de árvores plantadas por acaso nos oceanos de tijolos e pedras torturadas.

Como não se perguntar sobre os homens e mulheres que ainda sobrevivem entre os cadáveres e no odor da morte, caminhando pela noite como animais assustados? E como distinguir entre esses mutilados e aqueles que foram ontem os responsáveis pelo terror islâmico e as vítimas, os civis inocentes feitos prisioneiros da loucura durante três anos? E o que dizer da Justiça sumária que é feita continuamente nessa antecâmara do inferno?

Lembro-me de 1944, da libertação da pequena cidade da França onde vivi durante a guerra e das torrentes de ódio, medo, tradição, infâmias, mentiras e crueldade que se abateram sobre a mais medíocre, a mais banal, das cidadezinhas do interior francês.

Vi como bandidos, antigos colaboradores dos alemães, se colocavam como juízes e torturavam, em nome da “França livre”, homens e mulheres (um dos meus professores de inglês na escola, por exemplo) que jamais haviam cometido nenhuma maldade.

Em Mossul e Raqqa imagino que as coisas são piores. Se a ocupação nazista foi terrível, pelo menos os assassinos da Gestapo e da SS não viviam entre nós. Em Raqqa e Mossul, a situação é diferente. Os assassinos do EI viveram anos no meio das populações obrigadas a servir os membros do grupo, ser suas escravas ou suas prostitutas. E hoje, como fazer uma triagem entre os que há anos são reféns do EI e seus carrascos? E qual o tipo de justiça que deve ser aplicada?

 

Em Mossul, na cidade de Qaragosh, povoado cristão perto da capital, um tribunal improvisado foi instalado nos escombros. Segundo o jornalista enviado pelo L’Orient Le jour (jornal libanês), “de repente uma tropa surge no meio dos escombros.

São 44, cabeça raspada. Quem são? Carrascos? Vítimas? Um deles é interrogado por um juiz que rejeita dar seu nome. O interrogatório é vago. No final, percebemos um advogado que permanecia mudo até ali e acompanha o prisioneiro de volta nas ruínas. E na saída, diz: “Ele certamente será condenado à morte’”.

Um pouco depois, outro detento. Este decidiu denunciar seus camaradas assassinos, para salvar a vida. O juiz lhe faz algumas perguntas:

“Você estava com o EI?”

“Não, apenas transportava material para eles.”

O juiz o olha e diz: “Você é um ser desprezível.”

Em uma fazenda próxima da pequena cidade cristã, foram descobertos os cadáveres de seis homens, à margem do rio. Sem documentos. Jamais saberemos quem foram. Os corpos têm traços de tortura. Foram executados por balas, mas por quem? Juízes improvisados? Traidores? Ou por pessoas de bem? Todas as manhãs cadáveres são encontrados, pés e mãos atados, olhos vendados. São assassinos? Vítimas inocentes? São mortos, apenas isso.

Na Síria um idoso que perdeu sua mulher em 2013, diz:

“Há crimes grandes demais para haver uma punição. Os crimes de Bashar Assad, da Shoa (Holocausto), os crimes de Adolf Eichmann, são muito grandes para serem expiados pela forca. 

Se Assad caísse em minhas mãos eu o deixaria livre, desde que permanecesse na Síria diante dos olhos daqueles cuja vida ele destruiu. E quanto aos assassinos de minha mulher, Samira, gostaria que ficassem à minha frente para eu olhar nos seus olhos quando quisesse. Há crimes cujos autores deveriam estar a salvo, pois aplicar uma pena significaria que a justiça foi feita. Ora, a única justiça possível é expor esses criminosos, para sempre, aos olhos das suas vítimas. Eu os olho ainda. Procuro uma pena à altura de seus crimes. Mas não encontro.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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