A lenta decadência do oráculo e guru do Partido Republicano

Os erros que mancharam a reputação de Karl Rove

É COLUNISTA, FRANK, BRUNI, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, FRANK, BRUNI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h06

Pouco antes do resultado das eleições de 2000, quando desfrutava do sucesso como "cérebro de Bush", Karl Rove fez pronunciamentos olímpicos sobre um próximo realinhamento do eleitorado e uma longa era de predomínio do Partido Republicano, promovido por - quem mais senão Karl Rove?

Na noite após o fechamento das urnas em 2012, quando ele ficou arrasado com a derrota de Mitt Romney e os míseros resultados da corrida ao Senado, começou a negar esses mesmos resultados. Foi uma coisa digna de ser vista, algo que realmente persistirá, aquela meia hora na Fox News, durante a qual ele insistiu numa outra realidade que não a descrita pela NBC ou CBS e até por seus colegas na Fox, que já davam como certa a reeleição de Barack Obama.

Rove não falou nada disso e não surpreende, pois não só contradizia as declarações que ele andara fazendo durante meses como especialista em mídia, mas diminuía a pose que ele exibia há mais de dez anos de profeta político confiante em si. Seu ressentimento permitiu tirar algumas lições. Uma delas é que o dinheiro, que os grupos políticos que ele dirige gastaram à vontade, não proclamou a mensagem nem conseguiu disfarçar as falhas de um candidato ou de uma candidatura.

Outra é que não é possível negar a realidade, quer a questão seja a mudança climática, que uma porcentagem ridícula dos republicanos finge não aceitar, ou a diversidade do país, que uma porcentagem contraproducente deles ignora. E outra ainda é que os profetas também são pessoas, cegas por interesses pessoais, buscando a própria promoção, nem oniscientes nem onipotentes. Numa cultura política que considera seus conselheiros como semideuses, esse fato costuma ser esquecido, principalmente pelos próprios conselheiros, e Rove apenas nos brindou com um impressionante lembrete disso. O oráculo sofreu uma debacle.

Ele começou 2012 como articulador político graças às candidaturas que defendeu com sucesso em 2010 e às dezenas de milhões de dólares que estavam sendo injetados em seu Super PAC, a American Crossroads, e sua afiliada Crossroads GPS, mas que logo começariam a desaparecer.

E, de fato, desapareceram. Os grupos de Rove dissiparam cerca de US$ 300 milhões nas campanhas republicanas, até mesmo na presidencial, na qual teriam despejado US$ 127 milhões em propagandas de apoio a Romney. Mais de US$ 11 milhões foram para a campanha ao Senado em Virgínia, que os republicanos perderam, e algo entre US$ 1 e US$ 7 milhões em outras nove campanhas ao Senado, segundo o Center for Responsive Politics. Em apenas uma, em Nevada, o candidato republicano foi eleito.

Os colegas conservadores de Rove não se esqueceram disso. Em uma declaração depois da eleição, o defensor da direita, Richard Viguerie, disse que, em um mundo sadio, Rove "nunca mais seria contratado para dirigir ou para servir de consultor numa campanha nacional". Donald Trump tuitou: "Congratulações a Karl Rove por ter acabado com US$ 400 milhões neste ciclo eleitoral. Todas as campanhas para as quais a Crossroads GPS fez propaganda para a TV, os republicanos perderam. Que desperdício de dinheiro".

O ciclo eleitoral revelou tanto os limites como a perfídia do dinheiro. As somas gastas em Ohio pela Crossroads e outros grupos em propaganda negativa contra Sherrod Brown, um democrata que se candidatara à reeleição no Senado e poderia ser derrotado facilmente, não contribuíram em nada para dar ao seu adversário, Josh Mandel, de 35 anos, a maturidade e a eloquência de que tanto ele precisava. Brown venceu.

Sem dúvida, os doadores e os Super PACs foram mais prejudiciais do que benéficos para Romney. Foi o dinheiro de Sheldon Adelson, que apoiava Newt Gingrich, que financiou alguns dos ataques mais brutais à carreira da Bain Capital de Romney, e preparou o terreno para os democratas o retratarem como um plutocrata calejado. Mantendo no jogo os adversários de Romney nas primárias, Adelson e sua turma forçaram Romney a ir ainda mais para a direita, o que o atormentou nas eleições gerais.

Se Rove tivesse uma firme convicção de como tudo isso terminaria, não teria continuado. Mas ele se considera o diretor presunçoso desse espetáculo agressivo. Humildemente, intitulou seu livro de memórias de Courage and Consequence e seu site informou que a excursão para sua promoção o levaria a "110 cidades em 90 dias".

Ainda não consigo esquecer de uma entrevista por telefone que ele deu a Joe Hagan para um artigo na revista do New York Times no ano passado. Rove acabara de se divorciar e estava dirigindo numa estrada no Texas com sua namorada mais jovem do que ele, uma lobista que, segundo boatos, fora sua amante antes do divórcio.

Hagan podia ouvir a mulher "gargalhando", enquanto Rove dizia maliciosamente ao ouvido dela: "Maldição, baby, estamos indo bem". "Foi algo grosseiro", disse-me Hagan, quando perguntei-lhe se a escolha do momento para o telefonema foi acidental e a presença da namorada foi revelada a contragosto. Não mesmo. "Fiquei impressionado com sua atitude arrogante e à vontade naquele momento", disse Hagan.

É claro que a arrogância, ou pelo menos o desembaraço, faz parte da bagagem do consultor. É o que compramos quando compramos conselhos: não só o conteúdo disso, mas a autoridade, até mesmo a grandiloquência, com a qual o conselho é dado. Nós trocamos a ansiedade da autonomia pelo conforto que obedecer ordens nos proporciona. E Rove dá ordens grandiosas, repletas de referências históricas misteriosas e pilhas de dados.

É esperto e em muitas oportunidades mostrou estar plenamente ao par dos pontos vulneráveis dos republicanos. A limitação do conservadorismo de George W. Bush - a ênfase oratória na educação, a posição moderada em relação à imigração - foi uma tentativa que teve o nihil obstat de Rove para impedir que o partido parecesse tão rígido quanto é agora. Rove advertiu reiteradamente que os eleitores de origem hispânica não deveriam ser afastados. E foi um dos primeiros líderes republicanos a lamentar abertamente o prejuízo que Christine O'Donnell, Sarah Palin e Todd Akin faziam ao partido.

Mas, em primeiro lugar, ou ele não os afastou ou não os pôde afastar, e à medida que a campanha de 2012 avançava, pareceu se perder na excitação ilusória e exagerada de tudo aquilo. O que culminou com sua tentativa na noite da eleição de rejeitar os resultados de Ohio e a projeção de uma vitória de Obama, fazendo com que a âncora da Fox News, Megyn Kelly, lhe perguntasse se suas contas contrárias eram apenas "um cálculo que você faz como republicano para se sentir melhor".

Dois dias mais tarde, novamente no Fox News, Rove ainda elucubrava, ainda negava. Ele afirmou que Obama ganhou "suprimindo o voto dos eleitores", mas com isso ele entendia os anúncios negativos a respeito da Bain. O mesmo que Adelson, certa vez, ajudou a espalhar.

A horrível noite do dia 6 para Rove provou que não se pode ganhar impulso ou criá-lo simplesmente por decreto, e existe um limite ao que a fanfarronice consegue. O caminho que ele percorreu a toda velocidade em 2012 o levou a uma colocação possivelmente menor em seu partido. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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