A liberdade de outros

Ao aplicar sua nova tônica de política externa, Obama deve desafiar francamente violações de direitos humanos

Fred Hiatt / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

Depois de um avanço nas décadas de 1980 e 1990, a democracia vem jogando na defesa. Os ditadores ficaram mais astutos sobre o poder popular. China, Rússia, Irã e Cuba foram mais bem-sucedidos exportando e exaltando seus sistemas que as democracias. Nos dois últimos anos, o presidente Obama pareceu pouco atento a essa mudança. Falou sobre liberdade, dignidade e democracia, mas democracias aliadas sentiam que seu foco era melhorar relações com potências autoritárias.

Em seu segundo pronunciamento anual diante da Assembleia Geral da ONU, Obama declarou que "liberdade, justiça e paz nas vidas dos seres humanos individuais" são, para os Estados Unidos, "uma questão de necessidade moral e pragmática". "Defendemos valores universais porque é a coisa certa a fazer. Também sabemos por experiência que quem defende esses valores para seu povo foram nossos aliados e amigos mais próximos, enquanto os que negaram esses direitos escolheram ser nossos adversários."

Obama apelou ainda para jovens democracias incorporarem seus valores em política externa. Por trás desse apelo está uma frustração com países como o Brasil, que, embora tenham evoluído democraticamente, conservam uma visão de mundo tolerante com ditaduras. Obama embarcará em breve para uma viagem à Ásia, em parte para prover de carne o esqueleto de sua nova retórica. Visitará as histórias de sucesso democrático de Índia, Indonésia, Coreia do Sul e Japão; anunciará doações para organizações não-governamentais que o governo espera que façam lobbies domésticos capazes de impelir seus próprios governos a se democratizar.

A promoção da democracia sempre competirá com interesses centrais na política externa americana, mas se a liberdade é, como ele disse, uma "necessidade pragmática", terá de haver momentos em que ela tomará a precedência desses interesses. É difícil encontrar exemplos disso nesses dois anos, em que seu governo criticou o estreitamento da liberdade na Rússia, mas a cooperação sobre o Irã era uma prioridade superior. Obama repreendeu Mubarak por sufocar a sociedade civil no Egito, mas a cooperação do autocrata na questão israelense-palestina era mais importante. Lamentavelmente, parece que democracias amigas com frequência pagaram um alto preço por reais ou supostas violações de direitos humanos: a Colômbia, por exemplo, onde a questão foi o pretexto para não promover um acordo de livre comércio.

Se a fala de Obama sinalizar uma genuína mudança, veremos o governo insistir no monitoramento da eleição no Egito. Ele usará ferramentas reais para penalizar violadores de direitos humanos na Rússia e na China. Não só afirmará seu apoio a uma investigação da ONU dos crimes contra a humanidade em Mianmar, como chamará às falas amigos da Tailândia, Cingapura ou Índia para tal investigação ocorrer.

E quem sabe o governo deixará de sabotar a mensagem de Obama sobre seu a guerra no Afeganistão. Nisso, o governo solapa sua alegação de ser um campeão de "valores universais". A segurança americana pode ser a única justificativa para arriscar vidas americanas no exterior. Mas "defender a liberdade de outros", para citar novamente o presidente, sempre fez parte da razão para os americanos lutarem. Quando a Casa Branca proclama que o Afeganistão jamais será uma democracia, quando insiste que a guerra não tem a ver com a liberdade do Afeganistão, mas com a destruição da Al-Qaeda e a proteção de Nova York - ela compromete a mensagem de Obama. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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