Mahmud TURKIA / AFP
Mahmud TURKIA / AFP

A Líbia no meio de dois fogos

Oito anos após a morte de Kadafi, país continua dividido e agora sob ofensiva de homem forte

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2019 | 05h00

Oito anos após a morte de Muamar Kadafi, a Líbia continua dividida em dois lados inimigos e a guerra às vezes se reacende entre essas metades. A oeste do país, na direção da Tunísia, está a Líbia“oficial” cuja cidade de Trípoli, capital do país, é a sede do governo de união nacional instalado pela ONU e dirigido por Fayez al-Sarraj. A leste, em Tobruk, reina o marechal Khalifa Haftar, que tem o apoio do autoproclamado Exército Nacional Líbio (ENL).

O marechal Haftar, de 75 anos, jamais escondeu suas ambições. Ele deseja assumir o controle do país inteiro. Há alguns anos, lançou operações inicialmente na direção leste, depois no sul, e agora avança para o leste, visando Trípoli. Os combates são violentos na periferia e os mortos são contados às dezenas.

Essa guerra lembra que a Líbia, desde a queda e a morte de Kadafi, não tem mais um poder central, está dividida, perigosa e desesperada. Há dois governos, dois Parlamentos, dois bancos centrais, dois Exércitos, e ainda uma multidão de tropas formadas por assaltantes, radicais islâmicos e soldados perdidos que perambulam pelo deserto ao sul.

Kadafi certamente era um dirigente brutal, um tirano, mas seu país prosperava e, em razão de um Exército sólido e em estado de alerta, ele sempre conseguiu frustrar os avanços dos jihadistas. Mas, em 2011, a comunidade internacional, sob o impulso da França, convenceu a Otan a lançar uma ação violenta contra o país, que evidentemente sucumbiu.

Os enormes estoques de material de guerra que Kadafi armazenou ficaram expostos, sem dono, nem guardiães. Os jihadistas pegaram sua parte e, ao que parece, os bandos que atacaram alguns anos depois o Mali estavam equipados com armas roubadas da Líbia.

A Otan e o país que a convenceu a agir (a França) não foram felizes. Agora, o novo presidente francês, Emmanuel Macron, resolveu meter o nariz no ninho de vespas da Líbia, pretendendo unir as duas partes. Em 2017 convidou os dois chefes inimigos a irem à França para um encontro. Não foi uma boa ideia. 

A comunidade internacional, ONU à frente, seguida pelos EUA e a União Europeia, respaldam o poder “legal”, que é o de Trípoli. A França, sempre desejosa de dar razão a todo mundo ao mesmo tempo, recusou-se a escolher um lado, mas tinha uma preferência não declarada pelo marechal Haftar. Por que essa opção de Macron? Porque ele acha, talvez com razão, que Haftar está em melhor posição que o pessoal de Trípoli para destruir os redutos de jihadistas.

Resta uma pergunta: Por que o marechal atravessou a Líbia de leste a oeste para atacar os subúrbios de Trípoli? A resposta é clara: uma conferência sob os auspícios da ONU foi convocada para entre os dias 14 e 16 em Gadamés (um oásis no deserto ao sul de Trípoli). O enviado especial da ONU esperava que houvesse um avanço na direção da paz tendo como primeira etapa eleições este ano e a instalação de instituições legítimas. O surgimento de tropas de Haftar em Trípoli pôs em xeque a reunião em Gadamés, suspensa ontem pela ONU.

Por último, contribuindo para o caos líbio, os portos do país se tornaram locais de embarque onde bandos de coiotes sórdidos e ávidos por dólares transportam em barcos em frangalhos africanos que fogem do inferno na esperança de alcançar as belas costas da Itália, agora fechadas pelo vice-premiê italiano Matteo Salvini. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.