A lição dos cortes excessivos

Fim da infraestrutura social para os mais pobres, além do componente racial, tem inflado os protestos violentos

Richard Sennet Saskia Sassen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Nosso filho vive pr#243;ximo de uma mesquita turca na Kingsland Road, em Hackney, onde foram registrados os dist#250;rbios mais violentos de Londres. Havia poucos policiais para conter os manifestantes e moradores tiveram de afugent#225;-los com facas e bast#245;es de beisebol. A a#231;#227;o desses vigilantes teve #234;xito onde o policiamento normal fracassou.

A Kingsland Road concentra, durante o dia, os jovens desempregados que n#227;o t#234;m nada para fazer - a taxa de desemprego na Gr#227;-Bretanha #233; de 20%.

Para evitar a criminalidade, havia centros comunit#225;rios abertos para jovens. Mas foram fechados, do mesmo modo que outros servi#231;os comunit#225;rios, como centros de sa#250;de e bibliotecas. Pol#237;cias locais tamb#233;m foram reduzidas.

Todos s#227;o v#237;timas da redu#231;#227;o de verbas de institui#231;#245;es da sociedade civil, para equilibrar as contas do pa#237;s. Antes das rebeli#245;es, o governo planejava tamb#233;m cortar 16.200 vagas na pol#237;cia em todo o pa#237;s. Em Londres, o programa de austeridade significou um corte de 19% nos programas do governo, e quem arcou com a conta foi particularmente a popula#231;#227;o mais pobre.

Um marxista da velha-guarda poderia imaginar que as casas incendiadas eram uma rea#231;#227;o pol#237;tica furiosa contra os cortes de gastos, mas essa explica#231;#227;o, no momento, seria f#225;cil demais.

Os agitadores s#227;o de v#225;rias etnias - apesar de serem descritos como uma multid#227;o de #147;jovens negros#148;. Mas o drama tem uma dimens#227;o racial. Os dist#250;rbios come#231;aram depois que um jovem negro, Mark Duggan, foi morto pela pol#237;cia. Pac#237;ficos no in#237;cio, os manifestantes logo partiram para a viol#234;ncia. Quando as agita#231;#245;es se estenderam para Manchester, na ter#231;a-feira, muitos dos manifestantes eram brancos.

O premi#234; David Cameron foi convincente ao explicar a necessidade dos cortes, mas n#227;o conseguiu convencer ningu#233;m sobre o que e como cortar; medidas como o aumento das taxas universit#225;rias, reforma do sistema de sa#250;de, redu#231;#227;o do contingente militar e policial, e at#233; a venda de florestas do pa#237;s, tudo foi contestado. O governo parece incompetente; perdeu legitimidade.

Os americanos precisam refletir sobre esse aspecto do trauma brit#226;nico. Afinal, Londres #233; uma das cidades mais ricas do mundo, mas tem uma grande popula#231;#227;o na pobreza. Nova York n#227;o #233; t#227;o diferente.

O americano est#225; obcecado com cortes de gastos. De v#225;rias maneiras, o programa de austeridade de Cameron #233; o sonho do Tea Party, nos EUA, transformado em realidade. Os brit#226;nicos enfrentam as consequ#234;ncias dos cortes, que levaram ao desinteresse e #224; exclus#227;o de muitos jovens, que est#227;o agindo de modo violento e irrespons#225;vel, motivados mais pela c#243;lera do que por uma agenda pol#237;tica expl#237;cita. #201; esta a sorte que os EUA desejam para si? / TRADU#199;#195;O DE TEREZINHA MARTINO

S#195;O PROFESSORES NAS UNIVERSIDADES DE NOVA YORK E COLUMBIA

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